Globalização é disputa

Globalização é um termo muito usado hoje em dia. Um mundo globalizado pode ser entendido como um mundo que se tornou próximo, ficou menor, permite trocas em escala global. Da minha casa eu assisto nos telejornais tudo que está acontecendo de relevante no mundo. Com meu telefone celular posso falar com qualquer pessoa no planeta. Pela internet não existem mais distâncias, a comunicação é instantânea. Mas é disso que estamos falando? Mais facilidades para todos? Uma diversidade cultural compartilhada como riqueza da humanidade?

No momento atual da história da humanidade não encontramos este padrão de solidariedade e cooperação como dominante. Muito ao contrário, vivemos uma era de competição, de individualismo, de ganância sem limites. E a globalização só pode ser entendida neste contexto. O avanço das tecnologias que permitem tudo isso não é ingênuo, tem um sentido e tem atores que lhes imprimem o sentido; a globalização, portanto, serve a interesses.

A globalização, neste século XXI, nesta fase atual do capitalismo, é a integração dos mercados e a exploração sem limites, em escala global, dos recursos naturais. A globalização é a produção da desigualdade em escala global. É um processo que gera pobreza em larga escala e beneficia a poucos. Os atores que impulsionam este processo são empresas que têm como único objetivo a maximização dos lucros, não importam os danos ambientais e sociais que promovam. E o seu sentido trágico é que não há quem lhes imponha limites. Estas empresas vão transformando tudo em mercadoria, deixam um rastro de morte, de destruição, comprometem o futuro da humanidade.

Os sofisticados equipamentos de pesca, com radares e sonares, não dão qualquer chance para os cardumes cada vez mais escassos de peixes. A escala de produção destes barcos pesqueiros é de grande magnitude, são verdadeiras indústrias flutuantes que não respeitam qualquer tipo de regulação, seja ela nacional ou internacional, invadem territórios marítimos de países que não têm como proteger suas águas de uma pirataria promovida pelo primeiro mundo.

Cena de "Roubando dos pobres"

Cena de “Roubando dos pobres”

A globalização não é orquestrada a partir de um centro de decisões, que eventualmente poderia mudar o curso das coisas. Ela é a expansão anárquica de animais vorazes, predadores cada vez mais poderosos que consomem tudo que tem pela frente e afetam as regras de reprodução da própria natureza, provocando a extinção de espécies e comprometendo a própria capacidade de reprodução da vida em nosso planeta.

Quando as emissões de carbono são denunciadas como promotoras do aquecimento global, quando os cientistas chegam à conclusão que estamos caminhando a passos largos para catástrofes climáticas, então esse Midas que transforma tudo em ouro cria o mercado de carbono como solução para a crise. E as empresas passam a operar com créditos de carbono, promovendo uma suposta compensação pelas devastações que promovem. Mas as florestas não se recompõem…

Quando a ciência descobre que pode produzir sementes que aumentam a produtividade, mas não permitem a reprodução da espécie, esta suposta neutra ciência captura todos os pequenos agricultores, que têm de comprar para toda semeadura as sementes transgênicas oferecidas pelas transnacionais. E se não têm com que comprar, não têm como comer.

Cena de "Amargas Sementes"

Cena de “Amargas Sementes”

A mesma produtividade perseguida pelas empresas demanda o uso de pesticidas, que correm para os rios e contaminam as águas, que envenenam a cadeia da vida na qual estas plantações se inscrevem.

A globalização dos mercados e dos negócios, pois é disso que se trata, não tem ética, não tem valores, não visa senão ao lucro. E caminha cegamente para um ponto de não retorno, no qual a natureza perde sua capacidade de se recompor da faina devastadora das empresas, no qual a humanidade fica ameaçada na sua própria reprodução.

E como a globalização é uma obra dos homens, assim como ela foi construída ela também pode ser transformada, resta saber se a mãe Natureza terá paciência de esperar este despertar da humanidade. Se ele vier…

Silvio Caccia Bava, sociólogo, fundador e coordenador de projetos do Instituto Pólis, diretor e editor-chefe do jornal Le Monde Diplomatique Brasil.

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