Água, problema ambiental, econômico, de saúde e de gestão

Dal Marcondes*

A incompetência na gestão da água gera desperdícios, contaminação de rios e mananciais e uma verdadeira epidemia de doenças causadas pela poluição, além de dificultar o desenvolvimento econômico em diversas regiões.

Água é o recurso natural mais abundante do planeta. Está em todas as geografias e em todos os seres vivos. É um dos recursos mais abundantes nas paisagens e, ao mesmo tempo, é o recurso menos disponível para uso humano ou para os animais. Cerca de um terço da humanidade não dispõe de água de boa qualidade em volume necessário para uma vida digna. Nas regiões de maior densidade demográfica, além de a água ser um bem escasso, está poluída e precisa de tratamento antes de ser disponibilizada para o público. E é bom lembrar que não há tratamento de água para oferecer aos animais, sejam terrestres ou aquáticos. Poucos se lembram de que na natureza não há entrega de água engarrafada.

Sob o ponto de vista econômico a água é parte de complexas equações sociais e ambientais. A humanidade demanda cada vez mais energia e serviços prestados pela água, seja para a produção de eletricidade, alimentos, produtos industriais ou qualquer outro bem que demande água em seu processo de elaboração. O grande problema não está em utilizar a água e os serviços que ela pode prestar para oferecer qualidade de vida à humanidade. O principal problema do uso da água está em poluir suas fontes, uma vez que a água doce não é tão disponível quanto se imagina. Apenas cerca de 3% de toda a água da Terra está disponível como água doce superficial e as cidades são as grandes vilãs, ao despejar nos rios e lagos quantidades imensas de resíduos e detritos, principalmente esgotos sanitários não tratados.

Apenas 1% dos rios que passam por cidades no Brasil tem ótima qualidade da água. Metade deles tem qualidade entre boa e regular, enquanto a outra metade fica com a qualificação de ruim ou péssima. Nas áreas rurais a situação é melhor, mas não muito. 75% de 1.988 pontos monitorados pela Agência Nacional de Água têm boa qualidade e 6% têm excelente qualidade, enquanto 18%, o que significa 358 pontos de análise, apresentam qualificação ruim ou péssima. A maior parte dos poluentes encontrados nos rios é formada por esgotos urbanos, o que prejudica não apenas os indicadores de saúde pública das cidades, mas também inibe investimentos empresariais pelo alto custo de captação e tratamento de água. Cidades e regiões com pouca disponibilidade de água de boa qualidade estão fadadas a um desenvolvimento econômico de menor intensidade.

As questões relacionadas à saúde pública são também dramáticas e urgentes. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que 88% das mortes por diarreia no mundo são causadas pelo saneamento inadequado, enquanto o Unicef demonstra que essa é a segunda maior causa de mortes entre crianças de 0 a 5 anos, cerca de 1,5 milhão morrem a cada ano em todo o mundo vítimas de doenças diarreicas. Em 2011, 396.048 pessoas deram entrada no sistema de saúde no Brasil com doenças diarreicas.

Cena do filme "A crise global da água"

Cena do filme “A crise global da água”. Veja a lista completa dos filmes sobre água em http://www.ecofalante.org.br/mostra2013/temas

Mesmo com esse cenário de carência quase absoluta, quase 40% de toda a água tratada no Brasil não chega às torneiras dos consumidores, se esvaem em sistemas de distribuição arcaicos e cheios de vazamentos. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram que uma redução de apenas 10% nas perdas representaria aumentar a receita operacional das empresas de água e saneamento em R$ 1,3 bilhão. Esse valor representa mais de 40% dos investimentos realizados no setor de abastecimento de água em 2010.

Mesmo com todos os diagnósticos já feitos e com as tecnologias necessárias já dominadas, a Organização das Nações Unidas acredita que em 2030 cerca de metade da população do planeta vai enfrentar problemas relativos à falta de abastecimento de água de boa qualidade. Este é o cenário para reflexão. A falta de água de boa qualidade na natureza compromete a teia da vida e aprofunda as crises da humanidade.

*Dal Marcondes é jornalista, diretor do Portal Envolverde, colunista da revista Carta Capital e aluno do Programa de Pós Graduação em Ciência Ambiental da USP.

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