Economia

Amália Safatle*

A arte de bem administrar uma casa ou um estabelecimento é a primeira definição para economia, mas bem que poderia se encaixar em ecologia. Economia gerencia e ordena a casa; ecologia estuda as relações entre os seres vivos e o ambiente onde moram. Um ambiente desequilibrado obviamente prejudica a boa administração de tudo o que nele vive e produz; ao passo que a má gestão dos recursos leva ao desequilíbrio desse ambiente.

A economia não passa de um subsistema de uma ampla grade de relações ecossistêmicas da qual depende para existir e funcionar no longo prazo. Apesar disso, o que se vê é uma inversão: o ambiente de que a vida depende é que está subjugado por decisões econômicas que o afetam o tempo todo.

A humanidade, que subtrai continuamente recursos do ambiente e os devolve em forma de resíduos e poluição, tem se mostrado uma péssima administradora. Ultimamente, tornou-se ainda mais consumista. Tem retirado recursos a um ritmo que a Terra, por meio dos serviços ecossistêmicos que presta, não consegue repor na mesma velocidade. E nem absorver a quantidade de carbono lançada na atmosfera, emissão esta intensificada pela ação antrópica. Fosse uma empresa, a Terra já teria quebrado. O consumo atual é de um planeta e meio, embora não haja notícias, por enquanto, de outro astro próximo apto a nos receber[i].

Foto do filme "Brasil Orgânico"

Foto do filme “Brasil Orgânico”

Sustentabilidade é o que almejamos, mas parece que nos demos conta dessa importância tarde demais. Isso porque alguns equilíbrios já foram rompidos e fronteiras ultrapassadas, como na perda de biodiversidade, com extinção galopante de espécies; na quantidade de nitrogênio despejada no ambiente por meio do uso de fertilizantes nitrogenados, gerando zonas mortas nos oceanos; e na mudança climática, fenômeno de alcance global capaz de afetar toda a delicada rede ecossistêmica.[ii]

Por quê? É a pergunta que nos faz tão humanos. Por que, sendo a espécie humana a mais inteligente, age de forma destrutiva e – o que é ainda mais inquietante – autodestrutiva, vítima do próprio sucesso evolutivo? Não faltam informações nem alertas. Nunca se produziram tantos dados e estudos a respeito. Mesmo assim, a política econômica dominante segue o seu rito, business as usual. Por quê?

Podemos arriscar algumas hipóteses. Talvez haja uma fé excessiva em tecnologias salvadoras e na ideia de que a própria economia contribuirá com soluções, ao oferecer produtos e serviços para as crescentes demandas de ordem ambiental. Quem sabe o problema não tenha sido devidamente precificado? E que seja apenas uma questão de saber valorar? Ou, quem sabe, o preço será tão alto que tornará inviável a ação, então é melhor manter as coisas do jeito que estão? Ou talvez haja uma indiferença com as gerações que ainda nem nasceram, levando a geração atual a se focar nos problemas do aqui e agora, que já são bem grandes. Ou talvez haja uma rejeição a qualquer coisa que remeta a um catastrofismo, e assim é melhor eliminar o mensageiro que traz notícias más e inconvenientes. Talvez haja uma dificuldade por parte dos ambientalistas, cientistas, estudiosos, ativistas – e comunicadores – de comunicar o problema. Não só comunicar, mas sensibilizar. Não só sensibilizar, mas provocar a ação transformadora. Quem sabe o problema seja a sensação de impotência, de admitir que pouco se pode fazer frente ao gigantismo do problema?

Cena de "Fé nos orgânicos"

Cena de “Fé nos orgânicos”

Ou, quem sabe, estamos apenas no início de uma evolução civilizatória, movidos essencialmente por impulsos da nossa natureza animal, de briga ou fuga. Como crianças, bagunçamos o quarto a um ponto que quase não tem conserto, mas somos novinhos demais para conseguir nos organizar e agir para recuperar o estrago.

Egocêntricos e narcisistas, como é próprio desta idade, queremos mais é consumir, brincar, curtir a vida.

Mas é na construção de uma nova concepção do que é o bem-estar que pode se abrir um caminho de efetiva mudança. O que se entendia por progresso não trouxe bem-estar, isso é cada vez mais patente. Marginalmente, surge a ideia de que se deve buscar prosperidade em vez de mero crescimento, ou seja, qualidade acima de quantidade. Buscar sentido verdadeiro no trabalho, no consumo, nas relações.

Para isso, a economia e seus instrumentos devem ser repensados, reestruturados e resedenhados, de forma que funcionem em prol do bem-estar humano, ao mesmo tempo em que história da civilização. Um reencontro de oikos, entre ecologia a economia, será revelador. Desta vez, com a economia a serviço da vida, e não o inverso. Este redesenho exigirá muito trabalho em novíssimas fronteiras do conhecimento econômico, e é em relação a isso que os economistas e demais estudiosos podem e devem prestar uma imensurável contribuição.

 

*Amália Safatle é jornalista fundadora e editora da Revista Página22


[i] Segundo cálculo de pegada ecológica desenvolvido pela Global Footprint Network.

[ii] Segundo estudo do Stockholm Resilience Centre. Mais em stockholmresilience.org/planetary-boundaries

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