Povos, lugares e um mundo em comum

* Ana Beatriz Vianna Mendes

 

“O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à ação, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a ação — a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a ação é, por sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.

Para agir é, pois, preciso que nós não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza para. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte — ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.” – Fernando Pessoa. In: ‘O Livro do Desassossego’

 

A partir dos documentários selecionados para a sessão Povos e Lugares da Mostra Ecofalante de 2014, outra não é nossa sensação senão a de reflexão e perplexidade diante da condição humana, do relacionamento dos homens entre si e de seu relacionamento com o Planeta Terra.

Nos vários lugares que passamos a conhecer por meio dos filmes, apreciamos algumas das agruras e satisfações de homens e mulheres que, com seus modos próprios de conceber o mundo e de lidar com o ambiente, nos mostram como são ricas e plurais as possibilidades de conferir significado à vida e ao mundo.

Cena de "Vila no Fim do Mundo"

Cena de “Vila no Fim do Mundo”

Essa imensa diversidade de povos e seus lugares, da qual temos aqui apenas uma pequena mas rica amostra, muitas vezes refletida e reflexo da variedade espetacular das línguas existentes (só no Brasil, estimam-se 274 línguas indígenas faladas atualmente – IBGE, 2010; e, no mundo, pelo menos 6.000 – Summer Institute of Linguistics, Texas, 1995), denota, em muitos casos, um saber profundo e respeitoso em relação ao ambiente. Este saber, no entanto, ao contrário do que às vezes pode parecer, não está baseado necessariamente numa condição de isolamento de povos e seus lugares em relação a outros lugares e centros de poder. São muitos os laços que ligam esses povos e comunidades ao mundo.

Isso fica claro, por exemplo, no caso do filme com o sugestivo título de Vila no Fim do Mundo (Village at the End of the World). A decisão do governo de fechamento da fábrica de peixes na longínqua vila Inuit de Niaqornat, na Groelândia, uma comunidade habitada por apenas 59 pessoas, instaura um drama que diz respeito à possibilidade da vila ter que ser abandonada pelos seus moradores em decorrência da falta de trabalho.

Outro documentário que retrata os povos Inuit, e este trazendo um recorte histórico mais amplo e com um escopo político mais claro, é Defensores do Ártico (Arctic Defenders). Ele trata justamente da união e mobilização social dos povos Inuit, de diversos lugares, para terem reconhecidos os seus direitos de soberania diante do Estado Canadense. Apenas unidos eles poderiam conseguir tal façanha.

"Floresta dos Espíritos Dançarinos"

“Floresta dos Espíritos Dançantes”

Outro caso que aparentemente denota uma situação de isolamento, mas que em realidade nos mostra justamente a conexão deste lugar com o mundo, é Floresta dos espíritos dançantes (Forest of the Dancing Spirits). O documentário mostra uma comunidade de pigmeus do Congo, com cosmologia, conhecimento sobre o meio e dinâmicas sociais e espirituais próprias, cujos sentimentos e crenças são apresentados pela diretora [Linda Västrik] de modo dramático, num mundo povoado por espíritos, especialmente a partir da narrativa de um casal que não consegue dar à luz uma criança viva. Mas, sorrateiramente, ficamos sabendo de mudanças que ocorrem no contexto da aldeia e que terão impacto incomensurável sobre a tribo.

Finalmente, em Um Rio Muda de Curso (A River Changes Course), acompanhamos uma família pescadora e agricultora do Camboja e as várias redes de influência que permeiam as decisões e suas opções por permanecerem ou saírem de seus lugares. Seja pela falta de terra (que tem sido comprada por empresários), seja
pela falta de peixe (cuja escassez é decorrente da atuação predatória das grandes empresas de pesca), ou seja ainda pelo endividamento (contraído em prol da manutenção da agricultura), essas pessoas circulam em busca de trabalhos na cidade mais próxima e mesmo em outros países, confrontando dificuldades e dilemas sobre as estratégias de sobrevivência da família e de permanência no lugar.

Cena do filme "Um Rio Muda de Curso"

Cena do filme “Um Rio Muda de Curso”

Nesses quatro documentários estão implícitas relações de conhecimento e de respeito em relação ao ambiente que têm sido ameaçadas pela chegada de grandes empresas ou do chamado ‘desenvolvimento’, em contextos que, em boa medida, se relacionam ao fenômeno da globalização.

Os perigos de se adentrar num território desconhecido são extensivamente narrados nas conversas e depoimentos de pescadores da região da Galícia, no filme Costa da Morte (Coast of Death). Numa paisagem já marcada por enormes cataventos de energia eólica, por exploração de eucalipto, de pedreiras e de pesca de larga escala, com
portos transportando produtos de todos os tipos, encontram-se ainda procissões marítimas, cavalgadas, campings nas montanhas, caçadores e pescadores artesanais. São justamente estes pescadores os narradores principais das várias histórias de naufrágio que ocorreram ao longo dos anos na perigosa Costa da Morte; e são eles também
que travam uma verdadeira luta com o Mar para garantir seus sustentos.

Ainda na temática da luta pela sobrevivência, talvez o filme mais inquietante seja o curta-metragem . O que significa para nós, enquanto humanidade, saber que partilhamos o mundo, ainda hoje, com pessoas como as retratadas nas diversas e atordoantes situações de trabalho análogas à de escravidão, na Índia contemporânea? Trata-se, como os depoimentos dos personagens e o próprio título revelam, de uma desumanização desses homens e mulheres, submetidos a jornadas de trabalho de mais de doze horas diárias. É como ver Tempos Modernos, de Charles Chaplin (1936), reatualizado e, transformado, ele, o próprio homem, em máquina.

Todas essas situações me fizeram pensar, retomando o argumento do início, nas relações que os homens travam entre si e com o planeta Terra. Para avançar na reflexão, como uma espécie de contextualização mais ampla do problema, vale pensar se as promessas da modernidade de garantir a paz, a prosperidade e a saúde a toda humanidade, a partir da razão e da ciência, foram cumpridas.

O que muitos desses documentários mostram é que não se trata apenas de tentar criar mecanismos que regulem as relações dos homens entre si, tarefa há muito tempo debatida, embora a violência, o desrespeito e a desumanização ainda sejam práticas comuns. É preciso também, de forma urgente, pensar num pacto que regule a relação dos homens com o planeta Terra, numa escala global (Serres, 1991; Santos, 2007).

Ainda que tal debate esteja ocorrendo de forma mais concreta desde pelo menos a Conferência de Estocolmo, em 1972, os filmes demonstram os reflexos da voracidade de alguns homens ou povos sobre outros povos, bem como sobre o Planeta Terra. Tal voracidade é propiciada, em grande medida, pela maior capacidade de ação sobre a Terra e também sobre os homens; sendo que os impactos dessas ações raramente podem ser calculados.

O já reconhecido e valorizado conhecimento de povos e comunidades indígenas e tradicionais ao redor do mundo – desde pelo menos a Convenção sobre a Diversidade Biológica, assinada por 175 países, em 1992 – é apenas um dos aspectos da questão. Mas talvez seja um aspecto crucial. Levando em consideração a necessidade cada vez mais ampla e extensamente reconhecida de um novo pacto humano com o planeta, talvez sejam precisamente esses variados povos tradicionais os que estejam mais próximos de uma resposta plausível para esta crise civilizatória que atravessamos. Entretanto, como o demonstram de maneira mais evidente os documentários A Criação Como a Vimos (The Creation as WeSaw It), que aposta numa experiência sonora arrojada e descreve a cosmologia de um povo do sul do Pacífico; e o já mencionado Floresta dos Espíritos Dançarinos (Forest of The Dancing Spirits), o fato de estarmos no mesmo planeta não garante que estejamos, de fato, tratando sobre as mesmas coisas.

A pergunta passa a ser então se é possível fazer um pacto que seja includente em relação aos vários mundos existentes no Planeta Terra.

 

 

* Ana Beatriz Vianna Mendes é antropóloga, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais e participa do Grupo de Pesquisa em Temáticas Ambientais (GESTA/UFMG) e do Grupo de Pesquisa Cidade e Alteridade: convivência multicultural e justiça urbana (UFMG/CES-Coimbra).

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