Energia e Ativismo

*Oswaldo Lucon

A área de energia mundial encontra-se em um importante período de transição. Na última década, os altos preços do petróleo no mercado internacional estimularam a busca por alternativas, tanto fósseis quanto renováveis. Nos Estados Unidos, uma revolução ocorreu com a ampla exploração doméstica do gás de xisto (shale gas). No Canadá, as areias betuminosas (tar sands) situadas sobre florestas praticamente intocadas se tornou uma opção considerada economicamente viável. O Japão foi atingido por um tsunami que causou um grave acidente nuclear em Fukushima e busca agressivamente alternativas em eficiência. A crise econômica deprimiu diversos mercados consumidores, particularmente a China, derrubando os preços das commodities básicas. Mais recentemente, os sauditas inundaram com seu petróleo barato o mercado internacional, desestabilizando economias (como as do Irã, Venezuela e Rússia) e inviabilizando uma série de projetos não convencionais de extração de óleo e gás. O Brasil, ainda inebriado com as promessas do pré-sal, se encontra às voltas com uma grave seca que atinge as principais hidrelétricas e engatinha na discussão de racionalização do consumo de energia e água.

Cena do filme "DamNation"

Cena do filme “DamNation”

Preparado ou não, no final do ano de 2015 o Brasil negociará questões fortemente ligadas ao setor de energia. Ocorrerá em Paris uma importante conferência climática promovida pelas Nações Unidas, em que se definirão mecanismos legais e vinculantes para respeitar limites atmosféricos para suportar as futuras emissões de gases de efeito estufa, provindas principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento.

Energia é algo que todos precisam, mas que muitos desperdiçam. Enquanto os mais pobres queimam de forma ineficiente lenha obtida às custas de muito esforço para comer e se aquecer, os mais ricos ostentam hábitos de consumo que ultrapassam em muito a capacidade dos sistemas naturais de se regenerar. Economias emergentes acreditam ser seu direito se espelhar nesses padrões insustentáveis, sonhando através deles obter o mesmo nível de bem-estar sem levar em conta que esse espaço não existe na pegada ecológica terrestre.

Grandes transformações não ocorrem do dia para a noite e dependem de muita ação política, que não existirá sem mobilização social. Com miopia em termos de competitividade comercial e sustentabilidade socioambiental, quase nada se investe em inovação tecnológica com vistas à transição dos sistemas atuais para outros mais renováveis e resilientes.

Por conta desta inércia, em muitos países ainda são marginais ações de eficiência no uso final de energia e de planejamento econômico-territorial de forma a minimizar impactos ambientais. Grandes grupos econômicos financiam partidos políticos para manter seu status quo através de subvenções econômicas, de informações assimétricas e de processos decisórios pouco transparentes. Populações querem ter energia imediata e abundante, mas quase ninguém quer que esta seja produzida em seu quintal – deixando implícita a ideia que governos encontrarão outra solução em outro lugar.

É nessas horas que surgem os conflitos. Geralmente desiguais, envolvem de um lado grandes empresas das áreas convencionais da economia; de outro, extratos da população que resolvem se organizar em movimentos ativistas de defesa de interesses locais. Nesses embates, as partes se caricaturizam, reduzindo a questão a capitalistas corruptos contra ecochatos xiitas. Entretanto, essa motivação é muito importante para a tomada de consciência das transformações que vivem as sociedades, de seus reflexos no meio ambiente e da possibilidade de se articularem grupos que influenciam nas tomadas de decisão. Para a sociedade, é um passo além das decisões individuais que muitas vezes surtem efeitos práticos insuficientes.

Cena do filme "Acima de Tudo"

Cena do filme “Acima de Tudo”

Sob o tema Energia, a Mostra Ecofalante 2015 enfatiza o lado do ativismo ambiental, parte importantíssima no processo de amadurecimento da conscientização social. É no ativismo onde se questionam propagandas e comunicações oficiais, onde se exige uma maior transparência, mensuração e verificação. Amplificado pelas redes sociais, o alvo do ativismo é quase sempre grandes grupos econômicos que, com o apoio da classe política, veiculam mensagens simplificadas e padronizadas em prol de seus interesses imediatos. O ativismo ambiental se contrapõe a expoentes do negacionismo científico, do dogmatismo desenvolvimentista e da moda consumista, estimulando o debate em busca de soluções macro para problemas que despontam localmente.

Embora possa parecer, o ativismo ambiental retratado nos filmes da Mostra Ecofalante 2015 não se refere somente a questões locais. Em seu pano de fundo estão a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, a proteção dos oceanos e o controle do acúmulo de substâncias tóxicas na natureza. Suas temáticas também apresentam implicitamente a necessidade de transformação dos sistemas energéticos mundiais.

De bela fotografia e paisagens deslumbrantes, o filme Malditas Barragens (DamNation) evoca o retorno à – e da – natureza. Financiado por uma empresa de vestuário outdoor, o documentário foi rodado nos Estados Unidos, onde mais de 75 mil barragens produzem apenas 7% da eletricidade do país e dois terços do total vêm de fontes fósseis, principais causadoras do aquecimento global. Enquanto isso, aqui no Brasil cerca de 80% da eletricidade vêm de fontes hídricas e deve-se reconhecer que, até o momento, a energia de Itaipu é utilizada para veicular críticas aos novos projetos como o de Belo Monte. Um futuro solar e eficiente é geralmente apontado como a solução, mas como transições não ocorrem da noite para o dia é importante às sociedades e governos entender sobre o que devem optar. Nesse ponto está a grande contribuição do ativismo de Ben Knight e Travis Rummel: a importância da ação política para o descomissionamento dessas obras de engenharia, revertendo em boa parte seus danos. Malditas Barragens traz, assim, uma oxigenação ao ambientalismo reducionista, com propostas espiritualmente rejuvenescedoras para um novo capítulo na história da natureza.

Em “Acima de Tudo”, um carpinteiro, ginasta, ex-dublê e pai de família procura paz e tranquilidade em um local arborizado no leste do Texas. Lá, descobre que seu refúgio daria lugar a um grande duto, o Keystone XL, ligando o Canadá às refinarias do Golfo do México. Lutando contra um Golias industrial (TransCanada), o moderno Davi (David Daniel) abriu o caminho para um grande esforço, um efeito em cascata que criou a coalizão Tar Sands Blockade, mobilizando estudantes e ativistas para reformar processos decisórios em um estado reconhecidamente conservador. Raros indivíduos decidem lutar contra grandes empresas de petróleo, cujos projetos são mitos criados “para o bem comum”. Com sua produção, John Fiege traz importantes insights para a oposição ao ufanismo petrolífero que existe em vários países. Essa é a ideia de Acima de Tudo: há algo que se pode fazer; há uma ação que se pode tomar para resistir ao que se acredita não estar correto, indo bem além de ações individuais com efeitos insuficientes.

Cena do filme "Crie com Ambição!"

Cena do filme “Crie com Ambição!”

“Crie com Ambição!” é uma divertida produção de Anna Broinowski, que mistura a rejeição à exploração de gás em uma mina de carvão num parque de Sydney com uma satírica perspectiva da ideologia norte-coreana. O filme trata basicamente da propaganda oficial e mostra o poder do humor para a veiculação de ideias, sem maiores pretensões técnicas ou científicas. Mostra aos brasileiros uma parte do mundo desconhecida e obscura, sem televisão ou internet, porém surpreendentemente com um lado bastante humano. Quanto ao projeto de gás, este foi suspenso – processo ao qual não se sabe até que ponto o filme colaborou. Fora da doutrina stalinista-hollywoodiana de Kim Jong-il, a Austrália precisará de muita criatividade e ambição para se livrar de sua forte dependência do carvão.

Tar (Tar) é um curta-metragem de Greg Francis, totalmente financiado por doações. Apesar do baixo orçamento – dez mil dólares – o filme apresenta belas imagens de santuários naturais, apontando os riscos de um controverso projeto de oleoduto que cruza o Canadá em direção ao Pacífico. O projeto Northern Gateway da empresa Enbridge visa levar para a China e outros mercados asiáticos o petróleo obtido das areias betuminosas da província central de Alberta. A rota atravessa as Montanhas Rochosas e cruza mais de mil rios até o porto de Kitimat na Colúmbia Britânica. Lá, será embarcado em superpetroleiros com mais de três vezes a capacidade do Exxon Valdez, que em 1989 derramou mais de 40 milhões de litros de óleo no Alasca. A Enbridge, que tem em seu histórico 610 derramamentos e 21 milhões de litros de hidrocarbonetos, projeta tentadoras receitas de 300 bilhões de dólares para o PIB canadense em 30 anos. O filme pergunta se vale a pena tal risco, se esses números são plausíveis e quais serão os reais custos envolvidos. Qualquer semelhança com a realidade brasileira atual não é mera coincidência.

Cena do filme "Tar"

Cena do filme “Tar”

* Oswaldo Lucon – Assessor Técnico (Energia e Mudanças Climáticas) da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Pesquisador do CENBIO (Centro Nacional de Referência em Biomassa, USP), Professor visitante na University of Texas at Austin e no Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, Professor no Instituto Mauá de Tecnologia e Faculdades Armando Álvares Penteado. Autor-coordenador do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Autor da Política Estadual e Mudanças Climáticas (SP). Doutor em Energia (USP), Mestre em Tecnologias Limpas (University of Newcastle, Reino Unido), Engenheiro Civil (Poli-USP), Bacharel em Direito (FD-USP) e Advogado.

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