A ética e a estética a serviço das questões ambientais no cinema atual

* Suzana M. Padua

Quem ama a vida sente uma enorme necessidade de encontrar meios de sensibilizar as pessoas para que adotem modelos de vida mais equilibrados e menos exploradores da natureza e de toda a riqueza que herdamos deste nosso planeta. O respeito aos elementos naturais parece ter se perdido com as pressões por ganhos de curto prazo e necessidades que emergiram com a modernidade. A época atual é marcada pela insustentabilidade e pela destruição dos sistemas ecológicos. São tantas as pressões sobre os recursos naturais e sobre outros seres humanos menos favorecidos que as pessoas que comungam das ideias de conservação e sustentabilidade passam a agir com certa angústia naquilo que se sentem aptas a fazer para melhorar as condições adversas a esses princípios.

Com os desafios cada vez maiores, lançamos mão de todas as formas que conhecemos para contagiar o maior número possível de pessoas, não como uma maneira de impor o que acreditamos, mas tentando abrir o leque de opções que possam introduzir novas formas de pensar e agir.

Dentre esses caminhos está a arte, que sempre teve um papel importante na evolução da humanidade. O artista em geral é aquele que percebe sutilezas, antevê consequências e é perspicaz em questões que a maioria das pessoas nem consegue enxergar. Talvez por isso que Sartre achava que cabia ao artista a responsabilidade de deflagrar a realidade, já que é ele quem tem o dom de captar o que as demais pessoas nem sabem que ocorre.

Cena do filme "A Invasão"

Cena do filme “A Invasão”

Platão já havia chamado a atenção para a importância da arte, e influenciou muitos pensadores que acreditam que o artista tem a capacidade de entusiasmar e, com isso, deve questionar, refletir e expressar aquilo que percebe como essência das questões que o toca. Expressa a totalidade, a imensidão e a riqueza de sentimentos que se extravasam ao se comunicar artisticamente.

A estética e a ética muitas vezes têm sido tratadas de maneira indissociáveis por muitos pensadores e filósofos. Isso porque o que é belo leva as pessoas a elevarem seus espíritos e a cuidarem com amor e fraternidade daquilo que vale a pena.

O cinema, conhecido como a sétima arte, é hoje uma das mais notórias e populares formas de expressão humana. Daí sua importância em divulgar ideias, que, nesse caso, aproximam a conservação e a sustentabilidade do espectador. O cinema envolve, sensibiliza, informa e ajuda a levar as pessoas a uma participação que pode se tornar ação de verdade. Daí sua importância na atualidade, que tanto precisa de gente atuante e engajada em causas que ajudem a proteger a vida da Terra.

Cena do filme "Nuoc 2030"

Cena do filme “Nuoc 2030”

Esses são os princípios que encontrei nos filmes que serão exibidos na 4a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em março de 2015. Há uma diversidade grande de aspectos que valem chamar a atenção.

A Invasão (The Rising) mostra, num ritmo lento que ajuda a fixar os detalhes das flores retratadas, a beleza e a persistência de algumas espécies florísticas. Mesmo agredidas, essas espécies sobrevivem aos maus tratos de três adolescentes que se divertem cortando seus caules e as jogando ao chão.

Cena do filme "O Semeador"

Cena do filme “O Semeador”

O Semeador (The Sower) mostra um agricultor apaixonado por espécies comestíveis, que cultiva incessantemente com amor e dedicação. Os detalhes das diferentes etapas impressionam o espectador, pois o trabalho é intenso, árduo e cansativo, mesmo que o agricultor pareça feliz e gratificado com o que faz. Há uma ênfase na diversidade de espécies comestíveis e no tanto que se precisa investir para se conhecer mais e, assim, poder melhor aproveitar a riqueza que o planeta nos oferece.

Nesse mesmo tema, mas com um tratamento bem distinto, Próspera Montanha (Prosperous Mountain) relata sobre um gigantesco silo existente no Ártico para armazenar espécies comestíveis, como se fosse um banco de sementes guardado por segurança em caso de desastres ambientais que possam ameaçá-las. Milhares de sementes estão sendo salvaguardadas para garantir que as espécies possam ser realocadas, o que indica que ameaças bem mais previsíveis podem estar por acontecer. O filme apenas mostra o processo de armazenamento, sem exibir reflexões sobre os possíveis riscos que podem ocorrer, cujas previsões estão levando a essa iniciativa.

Cena de Próspera Montanha"

Cena de Próspera Montanha”

Nuoc 2030 (Nuoc 2030) exibe realidades diferentes do que a maioria das pessoas ocidentais conhecem. Num romance passado em Saigon, a vida parece depender mais do mar do que da terra. Por meio de um romance intenso, o filme mostra pesquisas feitas com espécies marinhas usadas para alimentação humana com modificações genéticas que podem ser prejudiciais à saúde. Pesquisas que deflagraram o interesse de grandes corporações na sua produção em larga escala – sem alardear os riscos desses produtos – e a subsequente força que acabaram conquistando no mundo atual.

Finalmente, Era uma Vez uma Floresta (Once upon a Forest) apresenta todas as qualidades que um filme de natureza pode ter para educar e sensibilizar o espectador. O filme relata a estória de um artista plástico, Francis Hallé, que conhece profundamente a vida das florestas tropicais, o que lhe permite mostrá-las em sua beleza, sutileza e complexidade. O artista se expressa, por meio de sua fala e desenhos minuciosos, através dos detalhes das árvores e da vida de inúmeros seres que delas dependem.

Cena do filme "Era uma vez na Floresta"

Cena do filme “Era uma vez na Floresta”

Ao misturar desenho animado e técnicas de aceleração de imagens com imagens verdadeiras, o filme mostra belezas que seriam difíceis para um leigo observar, mesmo que estivesse in loco. Formigas, borboletas, morcegos, pássaros, macacos e elefantes aparecem em momentos certos para ilustrar pontos que o protagonista quer destacar.

O artista expressa seus sentimentos de indignação pela destruição das florestas tropicais nos últimos 50 anos, mas não permanece negativo. Mostra como uma floresta é capaz de se regenerar, começando por árvores pioneiras, que ao seu tempo dão lugar a secundárias milenares. Segundo o narrador, as árvores o impressionam, pois “regem o tempo, enquanto os animais regem o espaço”, num equilíbrio perfeito de beleza, sutileza e diversidade num só local.

Nesse filme, Platão se sentiria representado pelo entusiasmo do artista em expressar suas paixões, e Sartre o aplaudiria por sua responsabilidade de chamar a atenção para o que a grande maioria não vê. Era uma Vez uma Floresta é um filme que integra a ética e a estética, pois o espectador pode sair sensibilizado, querendo proteger as florestas ainda existentes. Esse filme deve ser divulgado largamente para tocar as pessoas sobre o que perdemos quando derrubamos as matas. Inclusive, a água, elemento da natureza que depende das florestas para continuar a suprir as necessidades humanas e das demais espécies, tão ameaçada agora no Brasil e no mundo. Tanta beleza nessa enorme teia de vida pode servir para maravilhar quem não tem olhos para ver e coração para sentir!

 

*Suzana Machado Padua tem doutorado em desenvolvimento sustentável pela Universidade de Brasília e é Mestre pela Universidade da Flórida (EUA). Atua em educação ambiental desde 1988, quando criou um programa no Pontal do Paranapanema em São Paulo ligado a áreas naturais, espécies ameaçadas e envolvimento das comunidades locais. Realiza pesquisas em educação ambiental e publicou inúmeros trabalhos no Brasil e no exterior. É cofundadora e presidente do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e ajudou a criar a Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, por meio da qual a instituição oferece cursos de curta duração em diversos campos socioambientais e Mestrado. Colabora também com o MBA, que é fruto de uma parceria com o CEATS/USP e Artemisia. Suzana já recebeu inúmeros prêmios no Brasil e no exterior.

 

Advertisements