A Vida dos Outros. Dos Outros?

* Hélio Mattar

A história se passa em 1984. O agente Wiesler, do serviço secreto de informação da Berlim Oriental, é destacado para espionar a vida de Christa-Maria Sieland, uma importante atriz, e de seu namorado, o dramaturgo Georg Dreyman, um dos poucos que ainda continua enviando textos para o outro lado do muro.

Wiesler instala escutas na casa do casal e passa a observar sua vida 24 horas por dia, anotando suas ações e seus movimentos. Parte de uma visão totalmente impessoal, quase desumanizada, mas, pouco a pouco, a experiência de observar o casal cria no espião uma cumplicidade que leva o triste e solitário agente a desafiar o que é certo ou errado, e se emocionar com o que via e ouvia. A “vida dos outros” deixa de ser a de um casal espionado e passa a ser a vida de Christa-Maria e Georg, pessoas com quem Wiesler desenvolve uma relação de afeto, quase como companheiros no convívio cotidiano, compreendendo-os em suas fragilidades e forças, e se compadecendo deles.

A “vida dos outros” deixa de ser “dos outros” e passa a ser a do próprio espião, que compreende o drama daquele casal como parte de sua própria existência e de suas emoções.

Mas, por que falar do lindo filme A Vida dos Outros, escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, ao comentar os quatro filmes do tema Consumo da 4ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental? Porque todos levam a uma reflexão sobre a maneira como a produção, a compra, o uso e o descarte de produtos consideram, ou deixam de considerar, a relação com os outros em uma perspectiva humanizada e inclusiva, na qual a vida “dos outros” seja considerada tão valiosa quanto a das próprias pessoas que consomem.

Cena do filme "Cadeias Alimentares"

Cena do filme “Cadeias Alimentares”

Uma reflexão central trazida pelos documentários diz respeito à importância de mudar a percepção daqueles que consomem na direção de se identificarem com as pessoas reais que sofrem o impacto de seu consumo. Ao sentir compaixão pela dor e pela fragilidade daquelas pessoas, podem mudar a forma de comprar, de usar e de descartar os produtos consumidos. A “vida dos outros” passa a ser a nossa própria vida, suas vidas conectadas às nossas de maneira inequívoca por meio do impacto de nosso consumo.

Assim é em Cadeias Alimentares, de Sanjay Rawal. O filme nos mostra que, historicamente, nos Estados Unidos, as pessoas que cultivam e colhem alimentos sempre estiveram entre os americanos mais pobres e vulneráveis. Nessa descrição, Cadeias Alimentares traz uma mensagem positiva ao contar a história de esperança da “Coalizão de Trabalhadores de Immokalee”. A entidade fechou acordos com algumas das maiores empresas de fast food do mundo e com grandes supermercados na direção de garantirem um tratamento digno e justo aos trabalhadores em cada um dos elos da cadeia de produção alimentar.

Isso ocorreu por pressão dos consumidores, que se deram conta da tragédia vivida por esses trabalhadores e decidiram usar o seu ato de consumo para pressionar as empresas das quais compravam para agir a favor dos direitos humanos.

Cena de "O Experimento Humano"

Cena de “O Experimento Humano”

Já em O Experimento Humano, de Don Hardy e Dana Nachman, o documentário, produzido e narrado pelo ativista e ator Sean Penn, aponta para a realidade chocante de milhares de produtos químicos não testados presentes em produtos aparentemente inócuos, como cosméticos, desodorantes, produtos de limpeza, xampus e até pastas de dente. E reflete sobre como esse fato pode estar relacionado com o aumento da presença de muitas doenças. O documentário destaca a importância de garantir que o impacto dos ingredientes dos produtos consumidos não seja prejudicial nem a curto, nem a médio e nem a longo prazo à saúde das pessoas. Nesse sentido, provoca a reflexão sobre o papel importantíssimo do consumidor ao demandar, das empresas fabricantes, informações sólidas, consistentes e críveis sobre os impactos desses ingredientes.

O filme A Tragédia do Lixo Eletrônico, de Cosima Dannoritzer, aponta que, todos os anos, até 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico – computadores, televisores, telefones celulares e outros aparelhos domésticos – são descartados no mundo desenvolvido. O filme mostra que cerca de 75% desses resíduos não seguem um processo adequado de desmanche e reciclagem de materiais, mas desaparecem em países como a Índia, China e Gana, onde o lixo é despejado ilegalmente, poluindo o meio ambiente e afetando as vidas e a saúde dos que vivem nessas regiões.

Cena do filme "A Tragédia do Lixo Eletrônico"

Cena do filme “A Tragédia do Lixo Eletrônico”

Aqui, também, os consumidores podem ter um papel fundamental na solução desse problema, atuando junto às empresas fabricantes e recicladoras para garantir o destino adequado do lixo eletrônico. Dessa forma, contribuem para proteger a vida dos outros, que convivem com esse tipo de lixo ilegalmente despejado em seus países, além de proteger suas próprias vidas, pois a falta de tratamento adequado do descarte levará a problemas exponencialmente crescentes de poluição de terras e águas subterrâneas que afetará, ao longo do tempo, toda a humanidade.

Finalmente, o filme Carne e Leite, de Bernard Bloc, reflete sobre a presença do gado como parte da civilização humana. Em 16 cenas, esse filme nos leva a diferentes países do mundo, mostrando como a vida dos homens e a criação de animais, e particularmente das vacas, estão intimamente ligadas há séculos.

O filme mostra como vivem e são tratadas as vacas em todo o mundo, desde Aubrac na França, onde as vacas têm nomes, até a máquina de ordenha, nos Alpes suíços, dando uma ideia da atual relação dos homens com as vacas, em que a busca de eficiência elimina o contato mais próximo entre homens e animais.

Cena do filme "Carne e Leite"

Cena do filme “Carne e Leite”

Mas o filme vai além. Ao mostrar as cenas de desmatamento da Amazônia para ceder lugar a pastos e os cruéis métodos de abate industrializado do Colorado (EUA), nos convida a refletir sobre o cuidado com a vida em geral, seja a da floresta, seja a dos animais, assim como sobre seu reflexo sobre o próprio destino da humanidade.

Fica para nossa reflexão a maneira como nosso consumo pode impactar – positiva ou negativamente – a vida dos outros. Para aqueles de coração altruísta, fica o conselho de usar o ato de consumo como oportunidade de escolha de produtos com impactos os mais positivos possíveis.

E, a todos, o conselho de que o consumo consciente, que considera os impactos causados pela produção, uso e descarte dos produtos, buscando levar a impactos mais positivos sobre a sociedade e o meio ambiente, protege aos outros como a nós mesmos. Visto que, ao nos preocuparmos com a vida dos outros, estamos buscando usar os impactos de nosso consumo para construir uma sociedade melhor e um meio ambiente sustentável, o que, em última instância, trará benefícios a todos, inclusive à nossa própria vida.

 

* Helio Mattar é formado em Engenharia da Produção pela Escola Politécnica da USP e obteve os títulos de Mestre e Ph.D. em Engenharia Industrial pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Atuou como executivo durante 22 anos em empresas nacionais e multinacionais, assim como em seus próprios negócios, tendo sido Presidente da GE Appliances em sua última posição. Foi Secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Foi um dos fundadores do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, do qual é membro do Conselho Deliberativo. É membro de diversos conselhos e comitês de empresas e organizações sociais, entre eles o Grupo Orientador da Fundação Itaú Social, o Conselho Consultivo da Social Accountability International, o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, o Comitê de Desenvolvimento Sustentável do Grupo Pão de Açúcar, o Unilever Sustainable Development Group dessa corporação global, e o Sustainability External Advisory Council da Dow Chemical. Foi durante cinco anos membro do Conselho de Consumo Sustentável, ligado do Fórum Econômico Mundial. Foi idealizador, um dos fundadores, e é, atualmente, Diretor-Presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.

 

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