Rios e o Cinema

Liciane Mamede*

O panorama histórico deste ano propõe cinco títulos reunidos em torno de um tema bastante pertinente ao presente contexto de crise de recursos hídricos. Contudo, para além da relevância da questão em matéria de meio ambiente, os rios também serviram de fonte inspiradora para um grande número de cineastas, alguns dos quais daí extraíram obras-primas incontornáveis.

Tantas potencialidades concentradas em um único tema geraram inúmeras abordagens, sendo o foco nas comunidades que vivem às margens do rio inspirador um leitmotif quase que onipresente. Assim, tanto quanto alguns cineastas vão se interessar por mostrar a influência decisiva que o rio exerce sobre o modo de vida das pessoas, a ponto de determinar uma identidade própria e inconfundível, nós também decidimos buscar cinco obras nas quais essa relação do rio com seu entorno fosse apresentada sob diferentes aspectos.

Amazonas-amazonas

Cena de “Amazonas, Amazonas”, de Glauber Rocha

 

Algumas abordagens vão se deixar orientar pela materialidade intrínseca das imagens, assim, são seus traços culturais, sociais e econômicos que vão ponderar o olhar do cineasta. Este é o caso de Amazonas, Amazonas, de Glauber Rocha, mas também de outras duas obras com as quais esse filme dialoga: Gente do Pó (Gente del Po), de Michelangelo Antonioni e Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira. São, todos os três, filmes documentários de curta metragem que, embora realizados em diferentes momentos e mesmo guardando traços estilísticos próprios, se inscrevem numa mesma tradição. Ainda que anterior aos três títulos, No Paiz das Amazonas, de Silvino Santos e Agesilau de Araújo, também não deixa de fazer parte dessa linhagem de obras: são todos filmes que partem do rio, a artéria de uma região, para contar uma determinada história, que é a história do povo que ali se constituiu.

No caso específico de Glauber, sobrepõem-se a veia crítica e uma vontade de denúncia inscrita nas imagens, tão emblemáticas, na voz off, na evolução tensa da música de Villa-Lobos. As aparentes abundância do rio e fartura da floresta contrapõem-se violentamente à pobre realidade apresentada, cuja identidade é seu próprio deslocamento histórico, entre um passado de plena comunhão com a floresta e uma tentativa malograda de enriquecimento e europeização.

Cena de "No Paiz das Amazonas", de Silvino Santos e Agesilau de Araújo

Cena de “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos e Agesilau de Araújo

Já o filme de Ozualdo Candeias, A Margem, embora parta da crueza da realidade que fica às margens do rio Tietê, extrapola e se lança na direção de um discurso alegórico, em que o mais importante é a apreensão de uma certa temporalidade, de uma ambiência, de um estado de espírito. Trata-se de tentar dar forma àquilo que é abstrato e, nesse sentido, Candeias dialoga com O Rio Sagrado (The River), de Jean Renoir. A oscilação dos personagens é reflexo daquilo que é imanente e que, em Candeias, traduz-se pela liberdade moral, pela loucura, pela errância. O rio é o próprio estado da alma dos personagens.

Outros dois filmes que integram nossa seleção centram em questões que, nos últimos anos, se impuseram como de grande importância para o debate ambiental devido ao enorme impacto que acarretam. Rio Violento (Wild River), de Elia Kazan, e Um Dia, O Nilo (Al-nass wal Nil), de Youssef Chahine (duas obras coincidentemente realizadas na década de 1960, mas que se mostram extremamente atuais), tratam da tentativa humana de subjugar a grandeza dos rios interferindo em seu curso.

Cena de "Rio Violento", de Elia Kazan

Cena de “Rio Violento”, de Elia Kazan

No caso de Rio Violento, a interferência se dá no sentido de tentar apaziguar a relação com o rio. Nos Estados Unidos dos anos 1930, a fúria do rio Tennessee vinha causando incontáveis estragos, e a construção de diversas barragens em seu curso foi a saída proposta pelo governo para que ele parasse de causar danos àqueles que ocupavam suas margens. Porém, a obra não será concluída sem prejuízos irreparáveis a uma parte dessa população.

Já a construção da represa de Assuã, obra de dimensões monumentais, trouxe impactos de proporções ainda mais terríveis, como encontra-se enfatizado no filme de Youssef Chahine. Para que o curso do rio Nilo fosse alterado, inundou-se um território ancestral e um povo que guardava consigo uma cultura milenar foi desterritorializado.

Inicialmente encomendado com o intuito de registrar a construção da barragem, um empreendimento egípcio e russo, o filme, que é igualmente uma coprodução entre os dois países, acabou sendo censurado pouco tempo depois de sua estreia nos cinemas egípcios. Chahine desvirtuara o plano original: no lugar da exaltação, seu filme carregava o tom triste da voz dos excluídos do grande projeto. Após a recusa por parte dos dois países, os negativos de Um Dia, O Nilo acabaram destruídos e Chahine foi obrigado a refilmar a película valendo-se de outro roteiro. Mais tarde, ele renegará esse segundo filme. A única cópia que o diretor conseguiu salvar da primeira versão de sua obra foi entregue ao então diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, o que, finalmente, permitiu que o filme sobrevivesse e fosse por nós programado. Trata-se, certamente, de uma raridade.

"Um Dia, o Nilo", do egipcio Youssef Chahine

Buscando por meio desta seleção não apenas filmes que proponham uma diversidade temporal e geográfica, mas também uma diversidade de olhares e de gêneros, a ideia deste panorama é não apenas estimular o debate e uma reflexão global por meio dos filmes, mas igualmente recuperar e valorizar obras cinematograficamente relevantes, apresentando-as ao público. Assim, em última instância, procuramos reconhecer o cinema em toda sua integralidade, seja como meio privilegiado para pensar a realidade, seja pelo seu valor de representação histórica ou, finalmente, enquanto arte.

 

* Liciane Mamede é produtora cultural. Formada em Comunicação Social, possui mestrado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, cursa mestrado profissional em Cinéma – Valorisation des Patrimoines, na Universidade Paris 8. Foi programadora do Cine Olido entre 2011 e 2012 e curadora das mostras Os Verdes Anos do Cinema Português (CCBB-SP, 2008), The Archers – O Cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger (CCBB-RJ, CCBB-SP, Sala P.F. Gastal, 2010), O Cinema de Ermanno Olmi (Caixa Cultural-RJ, 2014), além de ter produzido inúmeros outros eventos do gênero. Desde 2012, faz parte da equipe de seleção de filmes da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

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