Homenagem a Jorge Bodanzky

* Evaldo Mocarzel

Em um momento histórico como o nosso, tão marcado pela deliberada e insistente hibridização do documental com o ficcional, e vice-versa, a obra de Jorge Bodanzky reluz como uma espécie de vaticínio dessa tendência hoje tão hegemônica que corre o risco de se tornar um inócuo modismo contemporâneo.

É bem verdade que, em toda a trajetória da arte cinematográfica, o documentário e a ficção propriamente dita sempre estiveram dialogando como duas linguagens indissociáveis, siamesas, da mise en scène dos irmãos Lumière com seus efeitos de “realidade” às ficções documentárias nos dias de hoje, passando pelas encenações antropológicas de Robert Flaherty, pelo Neorrealismo italiano, pela Nouvelle Vague, pelo nosso Cinema Novo e pelo Dogma 95, entre outras tendências ou movimentos que deixaram vestígios indeléveis na História do Cinema.

Jorge Bodanzky

O fascínio e a atualidade da obra de Jorge Bodanzky residem justamente no fato de que ele não estava nem um pouco preocupado em seguir cartilhas de experimentações incensadas por determinadas vertentes da crítica especializada. Ciente das fronteiras difusas entre o documentário e a ficção, o cineasta e também grande fotógrafo sempre embaralhou sem medo ou pudores esses limites e conseguiu enveredar por camadas muito profundas do “real”, talvez inexpugnáveis somente com os procedimentos de linguagem que costumam estar associados ao filme documentário.

O esplendor linguístico da obra de Jorge Bodanzky está centrado principalmente em dois filmes que formam uma espécie de díptico: Iracema – Uma Transa Amazônia, de 1974, realizado em parceria com Orlando Senna, e Terceiro Milênio, de 1981, em que a direção foi dividida com Wolf Gauer.

Iracema

Desde a gênese do argumento escrito em parceria com Hermano Penna, Iracema foi concebido como um “docudrama”, nas palavras do próprio Jorge Bodanzky, engendrando o encontro de dois personagens ficcionais, um  motorista de caminhão e uma jovem prostituta, que são atirados na potência documentária de três “realidades”: a floresta amazônica, a estrada e a cidade. Como “arquitetura do inesperado”, pedindo emprestada a expressão criada pelo crítico Carlos Alberto Mattos ao se referir à linguagem do documentário, o filme poroso ao acaso é invadido sem piedade pelas fraturas explosivas do “real”, com destaque especial para as imagens dantescas das queimadas da floresta amazônica que correram o mundo e que foram proibidas porque desmascaravam com crueza em longos planos-sequência o ideal de progresso do regime militar.

Um detalhe de bastidor: no que diz respeito ao acelerado processo de decadência da jovem prostituta que dá título ao filme, metonímia da floresta amazônica, foi criada uma prótese para encobrir uma falha nos dentes de Edna de Cássia e que foi tirada no set nas sequências em que ela mergulha de vez no baixo meretrício. O efeito é devastador e provoca um impacto no público que poucos recursos documentários poderiam deflagrar.

"Terceiro Milênio"

“Terceiro Milênio”

Terceiro Milênio é uma experimentação que tem parentesco profundo com Iracema, mas por um caminho diametralmente oposto: convidado pelo senador Evandro Carrero para documentar a sua primeira viagem de campanha ao governo do Amazonas pelo rio Solimões até Manaus, Jorge Bodanzky tratou o político histriônico como um personagem de ficção. Carrero dormia o dia inteiro e subitamente acordava impulsionado por rompantes de auto mise en scène explicitamente ficcionalizados, mas sempre fazendo o papel dele mesmo. Para o cineasta, trata-se do seu trabalho mais “redondo”, mais orgânico no que diz respeito a esse embaralhamento do documental com o ficcional, e vice-versa, sem perder tempo em ficar delimitando fronteiras para essas duas potências linguísticas sempre tão difusas.

Nos anos 1980, Jean Rouch organizou uma mostra dos filmes de Jorge Bodanzky na Cinemateca Francesa, debatendo-os com o público após a exibição. Vale a pena resgatar trechos de texto escrito na época pelo grande cineasta francês, realizador de títulos seminais como Crônica de um Verão (em parceria com Edgar Morin) e Eu, um Negro. O título do artigo é “Uma Lição de Cinema Direto Vindo da Amazônia”: “(…) Nós jamais poderemos esquecer os amores reais e imaginários de Iracema, a jovem prostituta indígena, com um motorista de caminhão no inferno sinistro da estrada Transamazônica… Terceiro Milênio é, na realidade, Fitzcarraldo outra vez, em umidade e suor, um barco ébrio subindo o rio, impassível, e seu Fitzcarraldo sendo apenas um mero senador em campanha eleitoral. Sob o olhar terno e cruel de Jorge Bodanzky, é uma viagem-surpresa, desde os arredores de Manaus até os profetas missionários da Verdadeira Cruz do fim do mundo, passando por índios prestes a flechar os impostores (parlamentares ou cineastas), ou pelas nenúfares gigantes, as vitórias-régias, que inspiram o senador a proferir um perturbador discurso ecológico. Que importância tem então a indiferença do senado de Brasília, ou o fracasso eleitoral do pequeno senador que se tornou poeta, se o próprio filme, testemunho exemplar, já faz parte da cinemateca mundial do terceiro milênio?”.

"A Propósito de Tristes Trópicos"

“A Propósito de Tristes Trópicos”

Filho de pais europeus e falando alemão em casa desde criança, Jorge Bodanzky se formou na Universidade de Brasília e também estudou na Filmgestaltung, em Ulm, na Alemanha. Trabalhou como fotógrafo freelancer para várias publicações e se apaixonou pela Amazônia ao visitá-la pela primeira vez. O cineasta tem uma obra extensa, com vários trabalhos realizados para a televisão alemã.

Criado em 2000, o projeto Navegar Amazônia é uma espécie de síntese do seu trabalho: a paixão pela floresta, suas preocupações ambientais, o respeito e o fascínio pela visão de mundo das comunidades ribeirinhas da região. Trata-se de um barco multimídia, plugado na internet, que virou ponto de cultura do Ministério da Cultura e que percorre as áreas mais longínquas da Amazônia promovendo oficinas, debates e encontros. “Uma janela para o mundo de dentro para fora, mas também de fora para dentro”, ressalta Jorge enfatizando a importância da alteridade, do olhar do “outro” em seu trabalho. Uma pequena amostra do trabalho do Navegar Amazônia pode ser conferida no documentário No Meio do Rio, entre as Árvores, de 2009.

Confesso que não é tarefa fácil escrever sobre Jorge Bodanzky somente em terceira pessoa. Além de um mestre para mim, com seu rigor e simplicidade, o cineasta é também meu amigo pessoal e um grande parceiro, com quem realizei alguns projetos, entre eles, os documentários À Margem do Concreto, Navegar Amazônia e um programa da série do Canal Brasil Retratos Brasileiros.

Jorge é um lorde austríaco, um cineasta-fotógrafo que dirige seus filmes incansavelmente através do olhar da câmera, quase sempre rejeitando o tripé para que seu ponto de vista arisco, terno e elegante não seja de modo algum engessado. Talvez a imagem mais marcante que guardo de Jorge Bodanzky em ação tenha acontecido durante uma filmagem que fizemos juntos em uma comunidade ribeirinha perto de Abaetetuba, no Pará. Estávamos ministrando em parceria uma oficina de cinema através do projeto Navegar Amazônia e, ao mesmo tempo, rodando o documentário homônimo. Estávamos todos fascinados por aquele grupo de pessoas entoando uma reza, uma ladainha, em latim, embora grande parte fosse analfabeta. Havia três fotógrafos registrando a manifestação religiosa e Jorge era um deles. A melhor imagem da ladainha reluzia no pequeno monitor de sua câmera. Não demorei muito a entender por quê. Sem a sofreguidão por planos muito rebuscados, Jorge simplesmente se ajoelhou para filmar a reza. Respirando com respeito, inteligência, elegância e delicadeza aquela atmosfera mística, ele estava em sintonia plena com tudo, imantado de sensibilidade e, principalmente, simplicidade. Uma aula de cinema para mim.

 

* Evaldo Mocarzel tem 55 anos e nasceu em 9 de fevereiro de 1960, em Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Formou-se em cinema na Universidade Federal Fluminense, no Rio, em 1983. É cineasta e dramaturgo.

 

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