Novas janelas para perceber o planeta

Marina Vieira Souza

Durante o mês de março, São Paulo viveu uma utopia. Na terra da garoa onde há falta d’água e os rios estão poluídos, na selva de concreto, cinza e carros, por dez dias seguidos ambientalistas, ativistas, cineastas e curiosos se juntaram em salas de cinema para prestar atenção no planeta. Cerca de 12 mil pessoas pararam por alguns minutos e assistiram aos efeitos das mudanças climáticas no cotidiano de comunidades distantes, o nascimento, crescimento e renovação de uma floresta, a destruição de barragens, o cultivo de sementes crioulas, o mercado ilegal de lixo eletrônico e outras 60 histórias da relação do ser humano com o meio ambiente, seja ele selvagem ou urbano.

A quarta edição da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental terminou no dia 29/03 e consolidou o festival como espaço para pensar as questões ambientais que permeiam todos os aspectos da nossa vida. “Um lugar onde você tem contato com dezenas de filmes, que estão mostrando diferentes aspectos dessa mudança de realidade que está acontecendo, é fundamental pra gente entrar nesse momento novo e entender nosso papel. Todo mundo vai ter que ter um papel novo na construção da solução desse problema que a gente criou ao longo dos últimos 60 anos”, resumiu Denis Russo Burgierman, editor da Revista Superinteressante.

O Sal da Terra deu o pontapé inicial e preparou o terreno para a bateria de filmes com alta qualidade cinematográfica que seriam exibidos em cinco salas da capital paulista. A pré-estreia da produção de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado fez com que o clima na abertura fosse de contemplação artística e consciência do mundo que habitamos. A jornada de Sebastião Salgado pelos piores conflitos humanos de sua época e o reencontro com a beleza da vida diante da natureza foram experimentados também pelo público da Mostra, que acompanhou filmes de denúncia, de tirar o sono, e filmes experimentais de observação e cenas encantadoras.

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Fotógrafo Sebastião Salgado fala na abertura da Mostra e pré-estreia de filme sobre sua vida, “O Sal da Terra”.

“Eu acredito que esse tipo de evento, juntando a sétima arte com o conhecimento, abre justamente os caminhos, traz novas percepções para aprofundar coisas que a gente ainda não conhecia. Despertar essa curiosidade através da arte é um conhecimento que fica para as pessoas” analisa Paulina Chamorro, editora de meio ambiente e cidadania da Rádio Eldorado/Estadão.

O poder de sensibilização dos filmes ficou evidente nos 21 debates precedidos de exibições, que se tornaram espaços de denúncias, dúvidas e troca de conhecimento. No Reserva Cultural, lar dos debates da Mostra Contemporânea Internacional, formavam-se filas para as sessões, e era possível ouvir pessoas discutindo os filmes até o caminho do metrô Trianon-Masp.

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Debate com Denis Russo, Bela Feldman, Délcio Rodrigues e Mattias Von Gutten

“A Mostra Ecofalante abre as portas da percepção, realmente dá a possibilidade de você pensar as questões de uma maneira diferente”, compartilhou o físico Délcio Rodrigues, acostumado a lidar com as crises nos ecossistemas pelo ponto de vista científico, de números e papéis, e que pode experimentar com os filmes uma visão mais humana. Rodrigues ficou cercado de pessoas e perguntas após a mesa sobre mudanças climáticas, cena que se repetiu em todos os debates.

Representantes de ONGs, estudantes, ex-funcionários de empresas de água, ativistas e todo o tipo de pessoas preocupadas com a sustentabilidade da vida formavam rodas de conversa na saída da sala, estendendo o tempo dos debates após a mesa ser desmontada para dar continuidade à programação. Os dias de Mostra expuseram a falta de espaços acessíveis para a população conversar sobre os problemas e buscar soluções. “Dez dias é muito pouco”, reclamou uma atendente no CCSP. “São muitos filmes, e muitos ao mesmo tempo, não tenho como assistir todos!”, reclamou outra entusiasta.

“A Mostra deveria ter uma difusão realmente nacional. Tinha que atingir todos os lugares, todos os estados. Tinha que ter um apoio maior dos poderes públicos, das empresas, das entidades de uma forma geral, para levar essa informação”, pediu Sebastião Salgado.

Nesta edição a Mostra contou pela primeira vez com o apoio da Prefeitura de São Paulo como correalizadora, sendo considerada uma das mais importantes da cidade pelo Secretário de Cultura, Nabil Bonduki: “Para nós é muito importante apoiar esta Mostra, porque ela leva a discussão para a população da cidade de São Paulo e permite que esse debate, que é da maior atualidade, possa estar presente na nossa cidade”.

Para Chico Guariba, diretor, esse é o DNA da Mostra: não só promover exibição de filmes, mas estimular também debates: “Mais de 6 mil espectadores participaram de debates, isso tem um impacto enorme. É uma grande inovação, que nos diferencia de outros projetos culturais ambientais no Brasil”, afirma Guariba. O destaque não está apenas na realização de debates como também nas temáticas, inspiradas pela diversidade do material audiovisual. Foram dias em que a abordagem e o debate sobre as questões ambientais eram a regra, não a exceção. “Uma sala cheia de ambientalistas discutindo sobre cidades pra mim é uma utopia”, confessou a urbanista Raquel Rolnik durante a mesa sobre Mega Eventos Esportivos.

Além da mostra internacional contemporânea, a Competição Latino-Americana se consolidou esse ano com produções de ótima qualidade, com participação em peso de filmes nacionais. Brasil S.A. foi escolhido pelo júri como melhor longa pela relevância da experimentação da linguagem, pela graça da animação e sua articulação narrativa. Balada para Satan foi premiado como melhor curta. Menções honrosas foram concedidas para Carioca Era Um Rio e A Lei da Água, este último também escolhido como melhor filme na votação do público.

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Realizadores do longa “A Lei da Água” recebem o prêmio de melhor filme escolhido pelo público na Competição Latina da 4ª Mostra

A programação de 2015 também agradou aos cinéfilos de carteirinha, que lotaram uma sessão ao ar livre na Cinemateca Brasileira, mesmo debaixo de chuva, para conferir a única cópia do filme Um Dia, O Nilo, vindo da Cinemateca Francesa. A película de Youssef Chahine é a única co-produção entre Egito e União Soviética, e fez parte do panorama histórico da Mostra, que se voltou para grandes rios e grandes diretores.

Falando em grandes diretores, o homenageado do ano foi Jorge Bodanzky, com a pré-estreia de seu novo filme, No Meio do Rio, Entre as Árvores. Além deste, foram selecionados outros cinco filmes de sua autoria, e um sobre sua vida, para formar a retrospectiva de sua contribuição ao cinema documental brasileiro.

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Chico Guariba entrega a Jorge Bodanzky o troféu da homenagem

“A temática da Mostra, o objetivo dela, que é discutir a questão da ecologia, é extremamente pertinente, porque é a grande questão no mundo hoje. É um grande dilema, um grande momento que a gente vive. Então acho absolutamente oportuna a existência desta Mostra, e aqui em São Paulo”, relatou Bodanzky.

Os dias de exibições abertas ao público foram precedidos por sessões para escolas e instituições de ensino superior. A Mostra Escola e o Circuito Universitário são plataformas que atendem diretamente as diretrizes do festival de promover reflexão sobre temas socioambientais e a formação de público.

Só no Senac foram cerca de 1.180 estudantes, professores e funcionários, que se debruçaram sobre o atual colapso hídrico com o filme A Crise Global da Água. Na Each – Usp Leste, os participantes puxaram cadeiras e ocuparam o chão para acompanhar o debate com Eduardo Jorge, Luiz Beduschi e Eduardo de Lima Caldas. Na Cásper Líbero, o segundo ano de parceria com a Ecofalante deu frutos ainda mais potentes: os universitários dedicaram suas produções audiovisuais do semestre a temas ambientais.

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Exibição e debate na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 

“A parceira com a Mostra Ecofalante é um privilégio, uma desejada confluência. Temos uma identificação natural com o projeto e a certeza de que as sessões na Cásper Líbero são potencialmente transformadoras. Que os nossos futuros realizadores multipliquem a mensagem ecológica e deem em breve a sua própria contribuição a esse campo tão importante e desafiador que é o audiovisual compromissado com a causa socioambiental”, afirma Roberto D’Ugo Junior, Coordenador de Ensino Rádio, TV e Internet da Cásper.

O mês de Março foi uma utopia para São Paulo, nessa união entre cinema, educação, meio ambiente e sociedade civil. Mas uma utopia que tem se aproximado do concreto, refletido na vontade das pessoas de receberem informações novas, de qualidade, e construírem a partir daí as soluções para uma convivência equilibrada.

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