Curta Ecofalante: espaço para produção audiovisual universitária

Trabalhos selecionados serão exibidos durante a 5ª Mostra Ecofalante em salas de cinema

por Marina Vieira

A preocupação com questões socioambientais da atualidade –  crise da água, poluição, mobilidade urbana, lixo e reflorestamento em áreas de mananciais – é o que une as cinco produções selecionadas pelo Concurso Curta Ecofalante. Em seu primeiro ano, o concurso recebeu mais de 30 inscrições de várias partes do Brasil. Os trabalhos escolhidos foram considerados os de melhor qualidade e de maior relevância do tema.

Os realizadores dos filmes mostram que também se assemelham em seus propósitos: foram movidos pela vontade de chamar atenção para pautas que julgavam importantes, muitas vezes presentes em suas vidas, com abordagens carregadas de preocupação social.

Gisele Motta, diretora do curta Triste Baía, conta que a ideia de fazer o filme surgiu por conta de uma série de matérias sobre a despoluição da Baía da Guanabara para a recepção dos Jogos Olímpicos de 2016, produzidas por ela para o Jornal do Brasil. “O histórico de degradação vai longe, desde a colonização, por ser uma área de pesca de baleias”, relata Motta, que na época em que produziu o filme fazia jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Cena de "Triste Baía"

Cena de “Triste Baía”

“As questões ambientais me tocam muito. É uma tristeza passar todo dia pela Baía, uma área gigantesca, principalmente na parte periférica, e ver tudo sujo. Então fui atrás do porquê de ser assim. O que mais me chocou ao fazer esse curta é que a gente pensa que a poluição é fruto de mal gerenciamento, mal governo, de uma forma errada de fazer aquilo, dizem que é muito difícil, a cidade é grande demais para saneamento, mas ficou claro que não é isso. É uma questão dos ganhos econômicos serem mais importantes que a saúde da população e do meio ambiente. Porque enquanto estiver poluído, continua tendo de exploração de petróleo, continua tendo lucro. Parece teoria da conspiração, mas é o que acontece nessa sociedade em que a gente vive”.

Para os realizadores do curta Travessia: Muita Vida Após a Balsa, o tema veio também de uma realidade local. “É curioso que muitos moradores de São Bernardo nem saibam da existência da balsa. Fazendo o filme, nos surpreendemos com o fato de que os moradores da região pós-balsa vivem quase desconectados, enfrentando dificuldade de mobilidade e em condições desiguais, nos campos social, econômico e até estrutural, em relação ao município”, conta Cecília Lopes, estudante do Centro de Audiovisual de São Bernardo do Campo (CAV).

Cena de "Travessia: Muita Vida Após a Balsa"

Cena de “Travessia: Muita Vida Após a Balsa”

Roberta Bonoldi, diretora de Verde Chorume, pensou no tema depois de tentar fazer com que o restaurante que tinha aberto no centro de São Paulo com um amigo fosse “zero waste”, os seja, não gerasse nenhum lixo. “Só que, com o tempo, parecia que não importava o tanto que a gente quisesse reciclar, estávamos produzindo mais lixo do que a gente dava conta. E aí percebi que não dá para conciliar esse nível de consumo com sustentabilidade”, conta. De uma conversa com seus colegas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) surgiu a proposta de fazer um filme sem diálogos ou estatísticas, só com imagem e som, para aproximar a questão do dia-a-dia das pessoas. “Nosso olhar é viciado para essa questão do lixo. Sabemos que produzimos muito, mas quase não pensamos nisso, como se fosse uma coisa natural. E não é. A intenção do filme é chamar atenção mesmo para o quanto nossa sociedade consome”.

O grupo de Leandro Cordeiro, que fez o filme Renascer, espera, além de chamar atenção para o tema de recuperação de áreas de mananciais, renovar as esperanças do público. “Depois de um ano dolorido para o Brasil, com a tragédia de Mariana, falar de jovens que se mobilizam para proteção de nascentes de água é algo emocionante”, diz o estudante da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). “Trazer um pensamento positivo e uma discussão ambiental ao público é algo essencial para o futuro da água no Brasil”.

Cena de "Verde Chorume"

Cena de “Verde Chorume”

A água é tema do quinto curta selecionado, o 2000 e água. Feito em 2014, um pouco antes do volume morto do Sistema Cantareira começar a ser usado, se propõe a lançar luz sobre a relação da água que consumimos na cidade com sua origem nos mananciais. “Usamos só narrativa visual, com uma música quase irônica de fundo [a melodia da marchinha de carnaval ‘Água Mineral’]. Tentamos abordar o tema de uma forma não tão combativa, e sim mais divertida. São três minutos descontraídos para passar um recado: temos que tomar cuidado para não piorar ainda mais essa crise”, conta Luiza Guerra, que estuda jornalismo na Universidade de São Paulo.  Sobre o título do trabalho, ela explica que é porque o Sistema Cantareira estava previsto para durar até o ano 2000, e então novos investimentos deveriam ser feitos para substituí-lo – o que não aconteceu. “Colocam a culpa na natureza, mas no fundo é falta de planejamento e uso irresponsável, tanto dos setores públicos quanto da sociedade, de cada indivíduo”, conclui Guerra.

Como não existem muitos espaços de exibição para curtas-metragens e filmes de temática socioambiental, os estudantes enxergam na seleção para a Mostra Ecofalante uma oportunidade de levar os filmes para um público amplo e também um reconhecimento de seu esforço.

Cena de "2000 e água"

Cena de “2000 e água”

Serviço

A 5ª Mostra Ecofalante, que acontece de 15 a 29 de junho em salas de cinema da capital paulista, é uma realização da ONG Ecofalante e do Programa de Apoio à Cultura (ProAC) do Governo do Estado de São Paulo, com patrocínio da White Martins e apoio da Goodyear e da Reciclo Pepsico. A correalização é da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Spcine e Escola do Parlamento da Câmara Municipal. A Mostra conta também com apoio institucional do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Embaixada da França no Brasil, Institut Français, La Cinémathéque Française, Le Monde Diplomatique Brasil, Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo, São Paulo Turismo (SPTuris), Observatório do Clima, SOS Mata Atlântica, Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Instituto Akatu, Instituto de Energia e Ambiente (IEE)/USP, Governos Locais Pela Sustentabilidade (ICLEI), Matilha Cultural, Fábricas de Cultura (Poiesis e Catavento), Videocamp, Rede Nossa São Paulo, Instituto Envolverde, Revista Piauí, Catraca Livre, Conexão Planeta e Horizonte Educação e Comunicação.

Cena de "Renascer"

Cena de “Renascer”

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