Planeta Urbano

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Imagem do filme “Ei, Vizinho!”

Erminia Maricato

As cidades podem ser vistas através de diversas lentes: como produto cultural e histórico, como palco de relações sociais, como resultado de planos e regras urbanísticas ou como um conjunto de signos, entre outras abordagens.

Mas, sem dúvida, a mais importante e determinante da vida urbana é a lente que a concebe como mercadoria. Embora sua existência tenha precedido o capitalismo, sua produção é um dos grandes negócios desse modo de produção. O acentuado processo de urbanização, na década atual e na anterior, pressiona os países que ainda mantém grande parte de sua população no campo e desafia qualquer proposta de sustentabilidade ambiental, devido ao intenso processo de construção de imóveis e infraestrutura urbana e econômica necessários (necessários?) à urbanização de sociedades crescentemente consumistas. Mas esse gigantesco movimento de construção não se refere apenas a países mais recentemente urbanizados (China e Índia, por exemplo), mas também a países que contam com alta taxa de urbanização, do capitalismo central (Estados Unidos e Espanha).

As explosões do mercado imobiliário, ao mudarem as faces de várias cidades do mundo após a virada do século XXI, são tema vasto não só para análises urbanísticas, como também econômicas, sociais, culturais, e sem dúvida, ambientais. Três dos sete filmes da Mostra que tratam do URBANO têm o mercado imobiliário como ponto central a partir do qual as consequências se multiplicam. São eles: Nação Especulação (Bill Brown e Sabine Gruffat, EUA e Espanha), Ei Vizinho! (Bingöl Elmas, Turquia), A Última Dança na Avenida, (Aristofanis Soulikias, Canadá). Poderíamos colocar nessa lista também o documentário O prefeito chinês (Zhou Hao, China), com a ressalva de que o movimento insustentável de destruição, construção, gentrificação, expulsão, valorização imobiliária e semantização aqui tratados têm, na China, um papel diferente do exercido em um país capitalista. Mas será isso mesmo?

Abusando da forma resumida e esquemática nestas rápidas páginas, vamos classificar as explosões imobiliárias ocorridas como “bolha” ou como “boom”. A bolha, aqui, significa que o crescimento terminou com estouro, atingindo toda a economia. Muito desse movimento deve-se aos abusos das jogadas financeiras em que criam-se capitais fictícios descolados do lastro de ativos que são os edifícios. A chamada crise financeira deixou ¼ da população espanhola desempregada. O estouro da bolha imobiliária resultou em mais de 400.000 execuções hipotecárias em quatro anos, interferindo, portanto, na vida de bem mais de 1 milhão de pessoas.

O documentário Nação Especulação mostra, em várias regiões do país, megaempreendimentos com mais de 30.000 unidades habitacionais (uma “cidade fora da cidade”), aeroportos e obras de infraestrutura abandonados como se fossem lugares fantasmas. Por outro lado, milhares de famílias enfrentam os despejos devido à incapacidade de pagar as hipotecas bancárias de suas moradias.

O filme não se limita a mostrar esse cenário aparentemente irracional (como se não soubéssemos qual é a lógica que conduz o capitalismo neoliberal), mas felizmente  concentra-se nas formas de organização popular que buscam responder ao caos social e econômico criado pela flexibilização nas regras de ocupação do solo e das operações financeiras. O documentário assume, portanto, um partido otimista: a resposta social é política, criativa e diversificada (lembrando de perto o ocorrido na Grécia de 2014 e 2015). Os movimentos sociais representados pelos Indignados, ou 15M, apresentam novas formas de organização que têm surpreendido os teóricos de esquerda e fomentado novas teses sobre as revoltas populares na era da internet. Estrutura horizontal, sem lideranças centrais, assembleias abertas, cultura colaborativa, espaço público tomado como espaço comum autogovernado. Os movimentos de moradia, como é o caso do PAH – Plataforma de Afetados Pela Hipoteca ocupam condomínios falidos, enfrentam os bancos e fazem fortes demandas ao Estado. Estamos no campo do que apontou Boaventura Souza Santos: nem só autonomia e nem só institucionalização, mas um pouco de ambos. É por isso que tais movimentos estão revelando uma geração de jovens que assumem, por meio de eleições, o governo de cidades.

Mas o que pensar quando o movimento de construção que despeja massivamente moradores de suas casas é dirigido por um comunista? O documentário O prefeito chinês mostra um dirigente do Partido Comunista Chinês escolhido, em 2008, para administrar a cidade de Datong, capital da China Imperial a 1.600 anos.

Datong é considerada a cidade mais poluída do país; foi centro de exploração de minas de carvão. Para recuperar a glória e o prestígio histórico da cidade e atrair turistas, o prefeito planeja e inicia rapidamente as obras de reconstrução de quatro muralhas e recuperação do centro antigo. O problema é que seu plano exige deslocar 30% da população urbana. As megaobras e a destruição avançam sobre 140.000 moradias (casebres ou apartamento populares), atingindo mais de 500.000 pessoas.

Geng on roof top

Cena do filme “O Prefeito Chinês”

As relações entre o prefeito Geng Yanbo, o  Partido  Comunista Chinês, os empresários de construção e a população removida (que buscava cercar o prefeito com suas demandas, obtendo promessas como resposta, numa relação tipicamente populista) surpreendem pelos detalhes e malabarismos revelados ou subentendidos. Muitos dos moradores eram convencidos a se retirarem sob o argumento da ilegalidade da posse em um país onde o Estado é o maior e quase absoluto proprietário (haja dialética)!

O Prefeito foi transferido repentinamente para Taiyuan quando as obras estavam em andamento. Sua saída provocou manifestações populares de apoio e não faltaram nem mesmo suas próprias lágrimas de frustração por precisar abandonar a missão no meio do caminho. Geng deixou uma dívida de R$ 3 bilhões e 125 obras em andamento. Mas o documentário lembra rapidamente que, mais tarde, em Tayuan, sua carreira de grande tocador de obras foi potencializada.

O que essas experiências têm de semelhante, já que uma se dá em uma economia liberal de mercado e a outra em um governo dito comunista, constituída a partir, portanto, de um Estado centralizador? Responder a essa questão exige mais espaço e certamente mãos mais hábeis. Com certeza, o motor da experiência mostrada no documentário chinês não está apenas na utopia e carisma do prefeito. Nos últimos 10 anos, a China provou que as megaconstruções estão entre as vias preferidas no processo de crescimento e na acumulação de capital pelo Estado (como disse meu amigo André Singer: um verdadeiro “Estado neoliberal”).

O “boom” imobiliário que impactou Istambul, a principal cidade da Turquia, é tratado no filme documentário Ei Vizinho!. Edifícios-torres e condomínios coexistem com casas simples, térreas ou sobrados que, antes do “boom”, marcavam todo o bairro. O filme entrevista os novos (e socialmente emergentes) moradores dos condomínios, os moradores remanescentes do bairro e até mesmo um antigo morador que negociou a troca de casas pelo apartamento em que vive atualmente. Apesar da reiterada menção às amizades entre vizinhos (que, aparentemente, não existe no condomínio), às trocas solidárias, às brincadeiras das crianças nas ruas, aos quintais e jardins que tendem a desaparecer com a nova tipologia de apartamentos e condomínios, o que se destaca dessa transição do espaço urbano é a luta de classes desvelada nas fissuras dos depoimentos. Para quem consegue ler, fica implícito também o vantajoso negócio realizado pelo capital imobiliário ao apropriar-se da renda imobiliária gerada a partir dos baixos preços do solo pagos pelas casas simples do bairro popular. O filme deixa de mencionar a violência criada pelas torres de apartamentos que passaram a desafiar, na paisagem de Istambul, as mesquitas ou monumentos centenários dessa cidade milenar, o que gerou controvérsia internacional.[i][1]

A mudança de cenário promovida por novos empreendimentos que apagam da memória da cidade edifícios históricos é o tema da animação de pouco mais de 3 minutos, A Última Dança na Avenida. Atores, músicos, dançarinos, prostitutas e transformistas uniram-se para impedir a derrubada de um conjunto de casarões do século XIX por um empreendimento imobiliário no multicultural Boulevard Saint Laurent em Montreal.

E já que a cidade é vista como negativa, ou ao menos constitui para alguns a oposição principal à natureza, então vamos abandoná-la, ao menos por 9 meses. Essa é a aventura que decide viver uma família: pai, mãe, ambos médicos, três filhos com idades de 10, 8 e 4 anos, 2 gatos e um cachorro. Eles mudam-se para uma cabana em Yukon,  sem estradas de acesso, sem energia, telefone, internet, água encanada, relógios e, além de tudo, cercada por gelo ou neve (ou ursos) durante o longo inverno. A mãe, Suzane Crocker, planejou fazer o documentário dessa experiência radicalmente inesquecível para qualquer um deles: Todo o Tempo do Mundo.

Numa das muitas entrevistas que deu a propósito dos prêmios que ganhou com o documentário, Suzane destaca ter percebido agora como suas vidas são cercadas de objetos e eventos para nos distrair e ocupar o tempo. Na cabana, o tempo se alonga, permitindo, assim, a experiência de desconectar-se da vida urbana e conectar-se com cada membro da família e consigo mesmo.[2]

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Cena do filme “Todo o Tempo do Mundo”

O oposto da ideia que orientou Todo o Tempo do Mundo – o mergulho na natureza selvagem – orientou a animação de 21 minutos Auto-Fitness (Alejandra Tomei e Alberto Couceiro, Alemanha), elaborada com técnica stop motion.  Tempo é dinheiro e, nesse caso, conceitos como competição, racionalização, repetição, rentabilidade e pressa são fundamentais. Os seres humanos coisificam-se e movem-se como produtos industriais em uma esteira fordista. Aqui não há tempo para nada e as tarefas da agenda fazem o mundo externo parecer inexistente.

Finalmente, para completar a série, um filme de ficção maravilhoso e atordoante. A transição entre uma sociedade baseada na produção agrícola, organização tribal ou familiar e uma sociedade urbana de mercado é o pano de fundo para a ficção A Mudança (Marat Sarulu, Quirguistão). Dos filmes que compõem o segmento de Cidades nesta mostra Ecofalante de 2016, ele é o mais marcante. É perturbador perceber o quanto um processo social, que é econômico e global, portanto de grande escala, define os destinos de cada um em sua aldeia, destruindo a harmonia existente entre as pessoas e a natureza. O país é o Quirguistão, pertencente à antiga União Soviética, com menos de 5 milhões de habitantes e, com pouco poder para, como nação, enfrentar as forças envolvidas na sua integração no sistema global. É o único país do mundo que tem, ao mesmo tempo, uma base militar russa e outra americana.

Em quase três horas de filme, o diretor Marat Sarulu nos conduz de um ponto de partida poético, marcado por um intenso equilíbrio entre pessoas e entre elas e o meio ambiente, para uma completa falta de saída. Os diálogos são parcos, apenas o necessário é falado.

As cenas iniciais despertam a ancestralidade existente em cada um de nós: um avô (ou o amigo do avô) com sua neta num barquinho diminuto em um cenário grandioso de água e montanhas. Vivem em condições extremamente simples, na beira do rio, sem água corrente ou energia elétrica. Mas há uma evidente harmonia entre eles e entre os amigos que compõem uma comunidade local. Os movimentos da água, do vento e do capim são completados por uma trilha sonora que evoca a natureza e memórias de situações vividas ou não. Tudo começa a ruir quando a filha vem buscá-los para levá-los à cidade.

Uma crise hídrica ronda todo o filme, mas nada é mais forte que a crise que atinge a natureza humana, configurada na vida de um avô, sua filha e sua neta.  A fragilidade do idoso, da criança e da mulher que queria resgatá-los para uma vida pretensamente mais segura pode ser vista como um processo histórico, social e familiar, mas também adquire aspectos específicos. Não somente as famílias estão se desmanchando, mas a ausência individual de perspectivas de futuro também.

A cidade, no entanto, é uma referência que aparece sempre longe. Os personagens não são nem urbanos, nem rurais. Eles não conseguem entrar na cidade, permanecendo sempre em espaços de passagem, em estradas rodoviárias ou ferroviárias. Eles não conseguem se inserir na sociedade de mercado, mas já foram expulsos da ordem antiga. Não há lugar para eles.

[1] Esse caso nos faz lembrar que, no Brasil, na cidade de Caboriú- SC, as altíssimas torres de apartamentos recém construídas impedem que o sol chegue à praia durante uma parte do dia. A ganância do mercado imobiliário e a flexibilização das leis matou as galinhas dos ovos de ouro. Na cidade do Recife, a construção de duas torres no centro histórico da cidade impediu que a área fosse considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO. Um forte movimento social, o Ocupa Estelita, luta contra um projeto que acrescentará 13 torres ao mesmo local.

[2] Talvez seja fundamental lembrar que a alimentação básica vinha da cidade e era preservada fora do alcance dos animais, ou seja, o isolamento teve limites claros.

 

* Erminia Maricato – Urbanista, profa. titular aposentada da FAU USP e Profa. visitante do IE UNICAMP

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