Os impasses do consumo responsável

Cena de "Filhos do Mar"

Cena de “Filhos do Mar”

Isleide Arruda Fontenelle*

Os quatro documentários que integram o eixo temático do consumo nesta 5ª Mostra Ecofalante de Cinema deixam claro quão complexo tem se tornado o debate em torno do consumo responsável, na medida em que este deve envolver as relações do homem com a natureza, com os outros humanos e consigo mesmo (a busca do corpo e mente saudáveis). Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade foca nas alterações climáticas e no aquecimento global, ao denunciar a agroindústria como grande responsável pelo problema. Em O Verdadeiro Preço e Filhos do Mar, o tema predominante são os custos humanos decorrentes da precarização crescente do trabalho, vislumbradas, respectivamente, a partir da indústria da moda rápida e da indústria pesqueira. Doce Mentira enfatiza uma questão de saúde pública, tocando particularmente aqueles preocupados com um consumo saudável.

Simples assim? Não. Há um entrelaçamento nessas formas de responsabilidade. Ao fazer a crítica à agroindústria, Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade aponta o dedo para nossos hábitos alimentares e, assim, também volta-se para a questão da responsabilidade individual, propondo uma saída radical. O Verdadeiro Preço destaca como o excesso de roupas baratas, produzidas para serem rapidamente descartadas, provoca enormes problemas ambientais, tornando a indústria da moda uma das mais poluidoras do mundo. Já em Filhos do Mar, vemos quanto a pesca necessária para atender o consumo em massa tem custado ao planeta.

Cena de "O Verdadeiro Preço"

Cena de “O Verdadeiro Preço”

Esses documentários apresentam perspectivas de consumo responsável, longe do velho clichê do consumidor “consciente”, que se sente redimido de suas pegadas ecológicas pois recicla o lixo, toma banhos mais curtos, não deixa luzes acesas ou troca o carro pela bicicleta. Todos esses hábitos, certamente, são benéficos ao planeta e positivos no contexto atual. Mas o que os filmes mostram é: se queremos falar sério sobre responsabilidade socioambiental, precisamos ir mais fundo. Quão fundo podemos ou devemos ir? São inúmeras as questões levantadas pelo filme nesse sentido. Gostaria de destacar duas, necessárias para entendermos de que modo a temática do consumo torna-se central para o debate socioambiental contemporâneo: as ênfases no excesso e em formas precárias de trabalho.

A questão do excesso atravessa de forma evidente todos os documentários: na produção e no consumo de roupas baratas, na quantidade de grãos e de água necessários à pecuária e, consequentemente, ao consumo de carne e derivados; nas toneladas de peixes pescados, tratados e embalados de acordo com a lógica industrial; e no alto consumo de açúcar produzido por uma megaindústria.

Por que consumimos tanto? Embora alguns busquem justificativas no superpovoamento do planeta, sabemos que não é disso, ou apenas disso, que se trata. A explicação mais evidente para tanto excesso está na própria lógica de funcionamento do nosso modelo econômico (uma outra, que abordarei adiante, é a certa satisfação passional provocada pelo consumo). O consumo, assim como a exploração do trabalho humano, é essencial para a manutenção e perpetuação do capitalismo. São duas peças fundamentais e complementares a este sistema; uma não existe sem a outra. Um dos exemplos dados pelo documentário O Verdadeiro Preço é o lucro proveniente da produção de roupas em uma fábrica que remunera seus trabalhadores míseros U$3 dólares por dia, lucro este que só torna-se concreto quando, na outra ponta, há um consumidor também disposto a desembolsar alguns poucos dólares por tais roupas. E, se tomamos o barateamento das roupas como exemplo positivo de crescimento do acesso ao consumo pela população de menor poder aquisitivo, estamos diante de uma falsa impressão. Em O Verdadeiro Preço, entendemos como a indústria de moda rápida é sintoma do empobrecimento da classe média; entrevistados explicam como roupas excessivamente baratas dão a impressão de um aumento do poder aquisitivo do consumidor quando, na verdade, só é possível comprá-las porque são produzidas por trabalhadores mal remunerados, o que permite a redução dos preços. “Eu acho que essas roupas são feitas com o nosso sangue”, diz uma das trabalhadoras de uma das inúmeras fábricas de roupas de Bangladesh, imprimindo um ar menos alegre à festividade frenética das compras nas lojas de fast fashion.

Mas por que pagar tão pouco para produzir tanta roupa que, de tão barata, é quase descartável? A filósofa alemã Hannah Arendt já havia previsto, no final dos anos cinquenta, a chegada do dia em que “uma cadeira ou uma mesa seriam consumidas tão rapidamente quanto um vestido, e um vestido tão rapidamente quanto o alimento”[1]. Isso ocorreria, segundo a filósofa, quando a taxa de uso das coisas fosse acelerada até o ponto em que a diferença entre seu uso – em sua durabilidade – e seu mero consumo se tornasse insignificante. Consumir um vestido tão rapidamente quanto um alimento? Acerca disso, vemos, Em Verdadeiro Preço, cenas que seriam cômicas se não fossem trágicas.

O tempo e espaço históricos que inspiraram Arendt a escrever sobre o rápido surgimento e desaparecimento dos bens de consumo foi justamente o período áureo da sociedade de consumo americana, pós-Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos constituíram-se como autêntica sociedade de consumo de massa e começaram a disseminação mundial de seu modo de vida. A partir de então, a força expansionista do capitalismo, no contexto de uma forma de produção e consumo globalizados, realizou a previsão da filósofa.

A população mundial também tem comido excessivamente, em especial aquilo que não deveria. É o que mostra o documentário Doce Mentira[2], ao sugerir que deveríamos consumir alimentos com açúcar moderadamente e inserir uma maior quantidade “comida real” (frutas, verduras, grãos) em nossa alimentação. Mas, em tempos de pesticidas altamente tóxicos e alimentos geneticamente modificados, o que significa “comida real”? Até que ponto é possível saber o que comemos de fato ou se o que comemos é, de fato, saudável? Doce Mentira mostra como, há pelo menos quarenta anos, o forte lobby da indústria de açúcar nos Estados Unidos, articulado a um investimento pesado em relações públicas, tem convencido a população a consumir cada vez mais alimentos relacionados a crescentes problemas de saúde, como a obesidade, o diabetes, as doenças cardíacas, entre outros. O documentário relaciona o atual combate ao açúcar ao movimento antitabagista de alguns anos atrás, até mesmo porque a indústria do açúcar utilizou-se das mesmas táticas de propaganda da indústria tabagista. O diretor de um centro de controle ao tabaco lembra que, ao contrário de comida, nós não precisamos de cigarros para viver. Assim, o objetivo não seria destruir a imensa indústria alimentícia, mas torná-la mais saudável para o consumo. Talvez os trabalhadores de Filhos do Mar discordassem abertamente dessa afirmação, uma vez que fumam continuamente ao longo do filme. E o cigarro em tais condições de isolamento, frio e solidão – voltamos ao tema da precarização do trabalho – parece um mal necessário (ou até mesmo um mal exigível). A presença ostensiva de uma marca de cigarros, no entanto, embaralha tudo e nos deixa em dúvida sobre seu real protagonismo naquele contexto.

Há muito dinheiro e muitos valores envolvidos no debate em torno de questões socioambientais. Doce Mentira aponta a promíscua relação entre ciência e capitalismo, devido ao apoio financeiro necessário à existência de pesquisas científicas; e Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade questiona o silêncio das organizações ambientais com relação à real atuação da agroindústria. Nesse fogo cruzado, acadêmicos, ativistas, empresas e governo invocam a responsabilidade do consumidor, que este torne-se o novo agente da história. Mas “consumidor responsável” pode ter múltiplos significados, a depender do discurso que o constitui. E os discursos sobre o consumo responsável dizem respeito a diferentes campos do saber e da prática, assim como a diferentes interesses, pois perpassam questões ambientais, de saúde pública, de ordem moral, política, de crítica social e cultural, bem como de cunho mercadológico. Não é por acaso que o consumo responsável é uma das formas a partir das quais a cultura do consumo – que é a cultura do capitalismo – vem se reformulando na sociedade contemporânea.

Cena de "Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade"

Cena de “Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade”

A necessidade de consumo a fim de fazer funcionar o capitalismo, porém, não é suficiente para explicar porque os excessos consumistas, apesar de tão criticáveis nos dias atuais, são de difícil superação. Outra razão é a forma como o consumo mobiliza as paixões humanas.  Não que a paixão por consumir seja algo natural; pelo contrário, ela é determinada historicamente. Mas humanos são movidos por paixões. Nosso “processo civilizador”[3] é uma longa história do trade-off entre nossas paixões mais brutas e nossas mais altas exigências culturais. Ao longo dos últimos 150 anos, o consumo tornou-se a ferramenta possível de regulação das paixões humanas. O consumidor é a figura histórica decorrente de uma cultura que promoveu o direito ao imediato gozo dos objetos, ao não adiamento da satisfação. Dessa perspectiva, o capitalismo é o resultado histórico de um longo processo de busca pela liberação das paixões humanas; tornando-se, então, seu principal protagonista.

Como seria possível por freios ao consumo desmedido sem sustentá-los apenas no poder ilusório do consumidor responsável?  Como imaginar um novo modelo econômico, uma nova cultura e novas formas de lidar com nossas paixões e desejos para além do consumo, que resultem em um indivíduo realmente capaz de responsabilizar-se pelo que faz a si próprio, aos outros e à natureza? Os filmes comentados – em propostas polêmicas e em suas contradições – ajudam a iluminar o debate em torno de tão complexa questão.

 

* Isleide Arruda Fontenelle é formada em psicologia, com doutorado em sociologia pela USP. É professora-pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, em cursos de graduação e pós-graduação e disciplinas relacionadas ao consumo e crítica da cultura. Autora de livros e artigos relacionados à temática do consumo, com destaque para “O nome da marca: McDonald´s, fetichismo e cultura descartável”, publicado originalmente em 2002

[1] Arendt, Hannah. A condição humana. Forense Universitária, 2000, p.137.

[2] Doce Mentira foca no consumo norte-americano, abordando, também, dados japoneses. Um recente documentário brasileiro – Muito além do peso – mostra a existência do mesmo problema no Brasil, enfocando o consumo infantil.

[3] Expressão e nome de livro de Norbert Elias, o processo civilizador, publicado no Brasil, em dois volumes, pela Jorge Zahar.

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