Imagens do passado e do futuro

FIAT_PRESSA HAMILTON_1934

Ladislau Dowbor*

O meio ambiente tem tudo a ver com economia. Primeiro, porque a sustentabilidade envolve o ambiente de vida em geral, ou seja, tanto o clima, o solo, as florestas, a biodiversidade, as opções energéticas – vitalmente ligados aos processos produtivos – como a desigualdade de renda e de riqueza, os dramas da miséria, os conflitos sociais – estes profundamente associados aos processos distributivos. Entender a dimensão econômica da sustentabilidade é vital; leva-nos da descrição dos dramas à compreensão dos mecanismos.

É importante que as pessoas, digo os seres humanos comuns, não os economistas, entendam que economia não é um “setor” de atividades misteriosas, e sim uma dimensão de tudo o que fazemos. A política de segurança envolve custos e interesses econômicos, como, por exemplo, os presídios privatizados nos EUA, contrários à legalização da maconha, uma vez que a manutenção de seu combate contribui para o aumento do que poderíamos chamar de seus “clientes”. Aqui vemos como economia, interesses políticos e financeiros, além dos impactos sociais, misturam-se. Não há uma “ciência econômica” independente, existem ferramentas de análise econômica que contribuem para o enriquecimento da compreensão das dinâmicas sociais em geral.

A riqueza de apresentar a dimensão econômica da sustentabilidade em documentários é justamente decorrente da linguagem documental, das imagens cotidianas e dos dramas analisados, através dos quais os mecanismos são compreendidos mais facilmente do que quando lidamos com a linguagem das equações. Equações, aliás, que, em geral, tanto são mais utilizadas em economia quanto menos deseja-se que as pessoas entendam. Tudo tem suas razões.

Cena de "Ágora"

Cena de “Ágora”

Antes de entrar nos filmes, alguns parágrafos sobre a dimensão econômica da sustentabilidade: em 2016, começamos a aplicar as resoluções das três cúpulas mundiais de 2015, traçando o que seriam, esperançosamente, novos rumos. Em Nova Iorque foram aprovados os ODS, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que nos guiarão pelos próximos 15 anos, até 2030. Em Paris, nesta sucessão de mais de 20 “conferências das partes”, tratou-se, desta vez, de uma política planetária para enfrentar o caos climático. Em Adis Abeba, a cúpula definiu com clareza a sua impotência para assegurar regras de financiamento que viabilizem as decisões tomadas nas outras conferências. Esta última também declarou-se esperançosa.

Vamos por partes: os ODS, centrados nos equilíbrios sociais, confrontam-se com mecanismos reais de concentração de renda e riqueza. Este mecanismo é simples: quem ganha pouco ou relativamente pouco, o que engloba três quartos da população mundial, gasta rapidamente a renda recebida. Quem ganha muito, especialmente quem ganha rios de dinheiro, não tem como gastar tudo o que recebe, e aplica as sobras no chamado mercado financeiro, onde os papéis rendem, como ordem de grandeza, 7% ao ano. Como a produção de bens e serviços aumenta apenas 2% ao ano no planeta, quem especula no mercado financeiro ganha muito mais do que quem produz. Ou seja, o sistema financeiro permite que seja muito mais lucrativo apropriar-se do trabalho alheio do que trabalhar. Para traduzir isto em graúdos, um bilionário que aplica um bilhão de dólares em papéis com rendimento de 5% ao ano, uma porcentagem modesta, está ganhando, isto é, aumentando sua fortuna, em 137 mil dólares ao dia. O resultado de tal mecanismo é a cifra estarrecedora que a Oxfam apresentou em Davos, que aponta que 62 bilionários dispõem de uma riqueza acumulada maior do que a riqueza total da metade mais pobre da população mundial, 3,6 bilhões de pessoas. Não há política social efetiva quando queremos que o dinheiro flua rio abaixo para os mais pobres, o chamado trickling down, mas a dinheirama continua subindo o rio. A boa vontade social defronta-se diretamente com o interesse econômico maior.

No plano ambiental mais estrito, e em particular o da mudança climática, as coisas não são muito mais promissoras, apesar do entusiasmo e alívio natural da conferência de Paris, com um grande sentimento de “desta vez vamos”. O planeta continuará a aquecer pelo menos até 2040, os efeitos das emissões são de longo prazo. Ademais, as grandes corporações mundiais, que regem as opções tecnológicas, claramente preocupam-se essencialmente com a manutenção dos processos produtivos na linha do que é mais barato ou mais rentável, e continuam a pressionar os governos, por exemplo, para que mantenham os bilionários subsídios aos combustíveis fósseis. Não lhes basta o dinheiro que tiram do petróleo, que, aliás, não foi por eles produzido, ainda buscam o dinheiro dos nossos impostos.

A conferência do clima diz o que devemos fazer, e o faz com competência, mas as corporações permanecem em silêncio e fazem o que querem. O interesse econômico, por enquanto, simplesmente domina. O mecanismo aqui também é ululante; quando um engenheiro diz à Samarco que é necessário reforçar o dique, a Samarco, simples terceirizada, ouvirá a Vale e a Billiton, que, por sua vez, consultarão suas controladoras financeiras, e, em algum lugar, alguém que nunca conheceu Mariana e sabe pouco de mineração, porém muito de finanças, vai reiterar os objetivos financeiros: a Samarco deve render o que foi dela exigido, se virem.

Assim, o processo decisório empresarial divorciou-se do nível produtivo, migrou para a alta finança internacional. Hoje, 147 grupos – mundo suficientemente pequeno para que se conheçam e interajam nos campos de golfe – controlam 40% do mundo corporativo do planeta, e 75% deles são grupos financeiros. Não é quem vê na sua frente um problema técnico iminente, na empresa efetivamente produtora, que toma as decisões, e sim quem se preocupa com o rendimento financeiro e o bônus. O processo decisório da pirâmide de poder corporativo fragmentou-se; no campo de golfe ninguém é responsável, pois segue-se apenas os resultados financeiros.

A dimensão econômica ajuda bastante a compreender os dramas vividos. Com a crescente desigualdade mundial e a concentração do processo decisório em alguns grupos financeiros globais, os objetivos absolutamente vitais para o planeta, capazes de promover equilíbrio social e ambiental, ou seja, o desenvolvimento sustentável, tornam-se, em grande parte, inviabilizados. Alguns números ajudam a entender a dimensão do drama: em Paris, chegou-se ao bom propósito de arrecadar 100 bilhões de dólares anuais para o financiamento de políticas de reconversão tecnológica que permitam reverter a mudança climática, em particular nos países mais pobres, os quais, aliás, não são os responsáveis por ela. Confrontem esses 100 bilhões com os 49 trilhões de dólares de ativos financeiros, correspondentes, além disso, aos 50 trilhões de dívidas públicas no planeta. Os grandes grupos financeiros brincam com dezenas de trilhões; nós precisamos mobilizar o planeta para tentar arrancar 100 bilhões. Ademais, temos ainda de 21 a 32 trilhões de dólares aplicados em paraísos fiscais, pelos afortunados do planeta, dinheiro que não apenas não é investido nos países de origem a fim de promover o desenvolvimento, como sequer é tributado. Não à toa, Joseph Stiglitz saiu da conferência mundial sobre o financiamento do desenvolvimento, em Adis Abeba, completamente desiludido. Quem tem dinheiro gosta dele, e o dinheiro em grande escala é poder, permitindo, assim, assegurar decisões políticas que o protejam. Wall Street proclamou seus valores para o mundo: Greed is good! O planeta que se vire.

Este pano de fundo francamente pouco promissor ajuda a entender as dimensões reais dos desafios. Estamos neste mundo real, promotor da destruição do planeta, para assegurar os privilégios e o poder de minorias. Chamamos isso de democracia, sendo que os pobres não têm peso algum. As futuras gerações não votam contra a tragédia que lhes preparamos, e a natureza é silenciosa, não vota. O sistema em que vivemos nos fez avançar muito, sem dúvida, quando muitas pequenas empresas competiam entre si para a melhor prestação de serviços. Hoje, porém, o sistema tornou-se disfuncional. Há momentos em que as mudanças são indispensáveis, não porque nos agradem ou não, ou porque somos de direita ou de esquerda, mas porque o processo atual nos leva para o brejo. A situação é particularmente interessante pois temos todas as análises sobre os dramas, temos os recursos financeiros, temos as tecnologias, sabemos o que deve ser feito, e continuamos nessa impotência institucional, na qual todos declaram-se favoráveis à mudança e nada muda, ou pelo menos não muda no ritmo correspondente à janela de tempo que temos.

Cena de "Sonhos do Lago Salgado"

Cena de “Sonhos do Lago Salgado”

Neste plano, a conscientização do planeta, em termos de promover a compreensão das ameaças e a clarificação das medidas, tornou-se vital. Enquanto não tivermos mais gente, em diversos níveis, conscientes da dimensão e da urgência, não haverá força política correspondente às medidas necessárias. O filme, nesse plano, tem um papel fundamental a desempenhar. No plano da conscientização e da compreensão dos mecanismos, vejamos o impacto obtido por filmes tão simples e ricos como Ilha das Flores, ou A história das coisas, mensagens claras que qualquer professor pode passar em sala de aula para abrir a discussão sobre coisas realmente importantes. Os filmes estão disponíveis online, dimensão vital nesta era da internet, gratuitos e legendados.

Temos aqui “marcos” importantes. O documentário A Corporação abriu a cabeça de milhões de pessoas ao apresentar um painel geral de como funcionam as grandes corporações. Trabalho Interno tornou-se um clássico para compreendermos como funciona a dimensão financeira do processo, em particular para esclarecer pessoas ainda crentes de que o chamado “mercado” funciona segundo leis de mercado, isto é, que ganha quem presta melhores serviços. Aqui ganha quem mais se serve. O filme Oceans nos deslumbra ao apresentar em detalhe o funcionamento dos três quartos do planeta que são mares. Chomsky&Cia, na linha do documentário-entrevista, é uma pérola para entender como se manufaturam os “consensos” mundiais, generaliza-se a mentira e a verdade é encoberta. Enfim, cito de memória alguns muito presentes. É notável a importância de Muito além do peso no esclarecimento da população acerca do massacre alimentar a que submetemos (e as corporações agroalimentares em especial) nossas crianças, ou ainda de Quem se importa?, ao mostrar como as organizações da sociedade civil articulam-se na base da sociedade, na busca de um desenvolvimento com bom senso. Estamos, na realidade, subutilizando o imenso potencial do documentário ou filme/documentário.

Com a facilidade de acesso, com grande parte das escolas já dotadas de meios audiovisuais (45 milhões de alunos nos diversos níveis), com a conectividade global, é possível potencializar esta forma de transformação cultural – que, ao fim e ao cabo, é o necessário – que o filme permite. No Brasil, onde 97% dos domicílios têm televisão, apenas primeiros passos estão sendo dados com canais como Arte1, Curta, TVBrasil, TVEscola, TV5Monde, BBC – todos discretos e assistidos por privilegiados, frente à cacofonia absurda dos chamados canais abertos. Imagine o instrumento de mudança cultural que poderia ser o uso inteligente e generalizado da televisão. Os aparelhos já foram comprados pelas famílias, os sistemas de retransmissão existem, trata-se de concessões públicas, as ondas eletromagnéticas são da natureza: tantos avanços tecnológicos para ver PMs perseguindo moleques nas favelas, como se caçassem coelhos? Assistir ao Faustão? Além da produção, no mundo dos documentários, precisamos conquistar a comunicação.

Na produção, nesta edição 2016 da Ecofalante, surgiram belos filmes que trazem a dimensão diretamente econômica das transformações em curso.

O italiano A Sopa do Demônio, de Davide Ferrario, traz uma visão desiludida porém realista de como a dinâmica industrial transformou o mundo no decorrer do século XX, com a força avassaladora da máxima: “o progresso sempre tem razão”. Imagens em preto e branco, fragmentos de antigos filmes empresariais que mostram os monstros do aço e do cimento da indústria pesada surgente, os discursos de Mussolini sobre a potência da Itália, camisas negras que só veem o futuro glorioso quando a guerra se aproxima. Atrás das fábricas, as cidades, a poluição, a vida urbana “senza cielo sopra, senza anima dentro”.  É um tipo de saga do século XX vista pela base industrial que forja também os seus valores; século de imensa confiança de que produto é a solução. “Vogliamo il prodotto” como lema de uma era.

O também italiano Sonhos do Lago Salgado, de Andrea Segre, focaliza um estranho e poético paralelo entre o surgimento incontido do chamado progresso, com AGIP, gás e petróleo na região de Veneza, em essencial nos anos sessenta, e um processo semelhante no Cazaquistão na atualidade. Deslocamento das populações, juventude dividida entre a expulsão do campo e as esperanças de empregos nas empresas de extração, “l’emozione dello sviluppo, l’uscita della povertá”. Com as imagens de populações marginalizadas não há como não pensar nas populações miseráveis ao lado dos grandes empreendimentos no Brasil. Fica como denominador comum esta estranha superposição do século XXI e do passado que parece eternamente fixado em ritmos rurais. Jovens que voltam dos estudos na capital, Astana, e olham com fascínio e descrença as choupanas dos seus pais. Eu diria que é um ensaio sobre o tempo, ou os tão diferentes tempos, das nossas transformações, para o bem ou para o mal; as novas disritmias econômicas e sociais.

Duas Irmãs, de Chloé Ruthven, é um poderoso documentário sobre como a industrialização e o consumismo ocidental impactarão as atividades econômicas na Índia. Unidades produtivas instalam-se em Bangalore, e, com a ajuda de um organismo de formação profissional ocidental (GTET), passam a recrutar moças no interior. Uma viagem de trem as leva de um meio familiar pobre, mas intenso, para dormitórios com seguranças que autorizam saídas diárias de uma hora, das 18 às 19 horas, luzes apagadas às 22 horas, ritmos surreais de trabalho junto à máquina de costura, como costurar de 400 a 500 bolsos idênticos por jornada, por exemplo. Em algumas empresas, 60% dos contratados abandonam o emprego em até seis meses. Os gastos com comida e o dormitório não deixam sobrar quase nada. Elas são substituídas por outras novatas, sina de jovens mulheres que precisam escolher entre o massacre da fábrica ou o casamento imposto. É o reverso da medalha das elegantes blusas ou calças de grifes importantes que iremos vestir com orgulho. This is really fucked up, comenta um dos organizadores do sistema.

Jardins nas Margens, de Amel el Kamel, é um curta que podemos descrever como poema em palavras e imagens. As palavras fazem realmente parte de um poema, falado alguns trechos em árabe, com a linda sonoridade da língua, e outros em francês. O cenário é um bairro abandonado de Roubaix, no norte da França, antigo centro têxtil dinâmico, hoje tão abandonado como Detroit, nos Estados Unidos. No bairro, resta um bar, de um argelino chamado Salah, homem teimoso, que diz que permanecerá nem que seja para vender um trago de vinho por dia. De certa forma, o abandono do bairro outrora tão dinâmico representa o reverso simétrico das atividades febris de Bangalore, para onde a indústria migrou. As transformações, aqui, também aparecem como inevitáveis, impostas ao ser humano, este apenas observador submisso. “Quem me dera ser uma pedra, parada no tempo”, comenta o filho de Salah, o narrador.

A Experiência Cecosesola se passa na Venezuela atual, na cidade de Barquisimeto, e narra a experiência de uma grande cooperativa, criada inicialmente por jesuítas, em 1976, e que evoluiu, na era do chavismo, para um sistema radicalmente diferente de gestão, com igualdade salarial e a substituição do conceito de chefia pelo da liderança participativa. Situada na cidade, a cooperativa que transporta, transforma e comercializa 500 toneladas de alimentos por semana, gera, na realidade, uma nova dinâmica de articulação entre campo e cidade, na qual o salário dos intermediários passa a ser repartido de maneira equilibrada entre os participantes do ciclo completo de reprodução. Uma das vantagens é que tal sistema, baseado na confiança e na colaboração, tem “fugas” de produto limitadas a 1%, enquanto no sistema privado tradicional, elas são de 6%. Para além da eficiência, trata-se aqui de estudar a mudança da cultura empresarial, das relações de produção no sentido mais amplo.

(R)Evoluções Invisíveis, de Philippe Borrel, faz um exercício extremamente rico ao apresentar numerosas experiências alternativas de desenvolvimento, provenientes de diversas partes do mundo. Trata-se, por exemplo, de cooperativas de crédito, onde não há clientes e sim participantes; de experiências de moedas locais (lembremos aqui que no Brasil já temos 107 bancos comunitários de desenvolvimento, muitos deles com moedas próprias e, em 2016, evoluindo para moedas eletrônicas); de desenvolvimento de tecnologias locais e assim por diante. Outros exemplos são as frentes de luta contra a construção do túnel sob os Alpes (Lyon-Torino); contra o High Frequency Trading do sistema financeiro moderno, que aloca recursos segundo algoritmos de especulação em vez de financiar o desenvolvimento. Em geral, é contra a correria generalizada que nos priva do tempo de vida, um capitalismo “divorciado de uma agenda realmente humana”. Riqueza de exemplos, imagens de quem assume a construção de alternativas.

De certa forma, os filmes, desde a pincelada geral do avanço descontrolado da indústria pesada, da globalização dos processos produtivos com impactos inversos e duros na Itália ou no Cazaquistão, na França ou na Índia, até as iniciativas alternativas em uma experiência concreta na Venezuela ou diversificadas pelo mundo, trazem um painel extremamente rico do que fazemos e do que poderíamos fazer. De certa forma, no conjunto, um tratado de economia aplicada.

 

  • Ladislau Dowbor, professor titular de economia da PUC-SP, e consultor de várias agências das Nações Unidas. É autor de numerosos livros e estudos, todos de livre acesso online em http://dowbor.org.

 

 

 

Advertisements