Povos & Lugares – Ocupar, Resistir e Produzir!

Foto do filme "Não posso Te Dar Minha Floresta"

Foto do filme “Não posso Te Dar Minha Floresta”

Marcos Sorrentino*

Ajudar na compreensão do mundo e de si próprio, em busca da potência de agir no enfrentamento dos atuais desafios, talvez seja uma das boas contribuições destes nove filmes produzidos em diversos territórios – 11 países: Bélgica, Irlanda, Reino Unido, Noruega, Alemanha, Rússia, Canadá, França, Israel, Índia e Brasil –, aqui agrupados no eixo Povos & Lugares.

O cinema possibilita o bom encontro para compreendermos os desafios comuns, em distintos tempos e lugares, incitando o dialogar e o atuar. Olhar atentamente para o próprio território e para outros pode ser fonte de aprendizados e amadurecimento individual e coletivo, para que um melhor entendimento desdobre-se em planejamento e ação racional.

Os “círculos de cultura”, propostos por Paulo Freire, ou as comunidades interpretativas de aprendizagem participativa, apresentadas pelo Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA), podem ser um desdobramento natural dessa viagem investigativa propiciada pelos filmes.

Nesta pequena e ainda bela Terra, habita uma humanidade crescente em quantidade de indivíduos, mas cada vez menor em diversidade – genética, de espécies, povos, culturas e lugares. Significativos processos de simplificação, homogeneização e padronização a serviço do patenteamento mercantil estão em curso.

Cena de "O Conto da Tundra"

Cena de “O Conto da Tundra”

Aproximadamente, sete bilhões de humanos agrupam-se em cerca de 200 estados-nações, responsáveis muitas vezes pela redução da pluralidade de comunidades linguísticas e culturais, reduzindo a interpretação da diversidade de seres humanos à raça, faixa etária, sexo, grau de instrução, religião, classe social ou a outras formas de agrupamento que facilitem a padronização, as regras e os procedimentos burocráticos. Simplificação que favorece, a princípio, o comércio, a produção e a tomada de decisões, mas que também comporta todas as formas de discriminação e de incompreensão da diversidade dos subgrupos e de cada pessoa.

Ao assistir a cada um dos nove filmes do eixo Povos e Lugares, percebe-se que os países e as pessoas são muito mais diversos do que os enquadramentos dados pelas normas legais, culturais e sociais e que o momento atual, especialmente por meio das artes, convida-nos a dialogar com o passado, com os povos nativos e isolados e, ao mesmo tempo, a questionar certas tradições e especificidades culturais que nos tornam reféns de um modo de vida predatório e agressivo às demais espécies e aos sistemas que dão suporte à vida.

A diversidade biológica e humana e os processos de homogeneização em curso transbordam das telas de cada um dos filmes, mas podem ser também exemplificados pela comunidade de língua portuguesa – oito estados-nações a adotam oficialmente –, mas como ignorar as centenas de línguas dos povos nativos do Brasil e dos países africanos? Ou o fato de que a maioria da população de Moçambique, por exemplo, fale apenas a sua língua nativa e mal compreenda o português? Ou como ignorar ser o galego uma língua mais próxima da comunidade de língua portuguesa do que da espanhola?

Cena de "Monções"

Cena de “Monções”

Em cada um dos agrupamentos simplificadores, detectamos centenas ou milhares de subgrupos e, se levarmos em conta suas especificidades, provavelmente chegaremos a um número próxima do de habitantes na Terra. Reafirmando a percepção de que cada pessoa é uma história, a diversidade se reafirma a cada nascimento e a perda de uma vida é a perda de parte de um complexo universo de diversidade humana.

Por outro lado, nos filmes é possível perceber também comportamentos, valores e necessidades comuns aos distintos povos e lugares: relacionamentos de respeito e gratidão com as águas e com os animais e plantas concomitantes à relações de exploração e indiferença, inclusive com o animal humano; e a necessidade de condições de mobilidade e comunicação para descobrir e articular-se com o Outro nas lutas por direitos ou na resistência à degradação e opressão.

Como um Estado com aproximadamente oito milhões de habitantes pode considerar quase 20% deles cidadãos de segunda categoria, colocando-os na mesma invisibilidade das plantas e animais que alimentam o seu cotidiano? Como uma grande potência colonial pode ter mentido por tantos anos aos nativos de uma região e ainda hoje não assumir a sua responsabilidade pelas terríveis consequências de seus testes nucleares para a saúde e para o meio ambiente? Como, em nome da tradição e/ou do turismo, perduram os rituais de horror e sofrimento de animais? Como, em nome das soberanias dos Estados e do bem-estar das elites dominantes, que estão nas cidades e no poder, há opressão de povos rurais, pescadores, povos isolados ou nativos, habitantes de um ou mais de um país que não se constituíram como Estado-Nação? Como fechar os olhos para as enchentes que atingem todos os anos parte da população de muitos países, enquanto outra parte vive as carências decorrentes do precário acesso à água?

Cena de "A Jornada do Moken"

Cena de “A Jornada do Moken”

Como diz o poeta, “o mundo tá pequeno pra caramba”, mas as inquietações e buscas básicas do ser humano permanecem. Em parte, essas buscas podem ser sintetizadas pela palavra de ordem do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MST): Ocupar, Resistir e Produzir! Dei este nome ao conjunto de filmes do eixo Povos e Lugares, por documentarem ou expressarem lutas e resistências de povos tradicionais na manutenção de seus territórios e sistemas de vida, sem os perder para forças econômicas e governamentais com projetos modernizadores (da mineração aos testes nucleares que ajudariam o mundo a viver em paz), tornando inviáveis os modos de produção e consumo distintos do hegemônico e globalizado.

Além de lutarem para permanecer ocupando a terra na qual viveram os seus antepassados – Viva a França, Negócio Sujo, Eu não Posso te dar Minha Floresta, Monções, O Conto da Tundra, Jornada do Moken, Para Onde Foram as Andorinhas – produzindo em condições extremas a própria subsistência, também construíram ali suas culturas, expressando-as através de festas, na arte, na indumentária, nas distintas línguas, na culinária e no diálogo com as forças da natureza – as águas das monções, os mares, a floresta, os animais, os ventos, as nuvens e os seres da natureza, com os quais estabelecem conexões para além da sobrevivência, símbolo da eterna busca humana por sentidos existenciais.

Cena de "Para Onde Foram as Andorinhas?"

Cena de “Para Onde Foram as Andorinhas?”

Sentidos estes, conforme interpretado por Hannah Arendt em A Condição Humana, não reduzíveis à obra criada em busca da imortalidade ou de uma eternidade pós-morte a ser encontrada no Paraíso, Nirvana ou Campos Elísios; uma eternidade perseguida no em ações cotidianas voltadas à subsistência, todavia sempre acompanhadas pela contemplação e pela busca da comunicação com o Outro (humano ou não) que auxilia na compreensão da vida, como bem expresso pelo personagem principal do filme Jornada do Moken.

Olhando as nuvens (e para a beleza e iniquidades da existência humana), Monções convida–nos a, ao invés de devolver o bilhete de ingresso na Terra, resistir, produzir e vivenciá-la em suas relações possíveis, construindo uma vida melhor, na contínua busca por respostas às questões existenciais que nos inquietam.

* Marcos Sorrentino é professor livre docente da USP, no campus de Piracicaba – ESALQ, departamento de Ciências Florestais, no qual coordena a Oca – Laboratório de Educação e Política Ambiental. Foi diretor de educação ambiental do Ministério do Meio Ambiente de 2003 a 2008 e ativista de diversas associações e articulações não governamentais, no campo do ambientalismo e da educação.

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