Seremos realmente capazes de mudar o rumo do nosso planeta?

Paulo Artaxo*

ICE AND THE SKY - Teaser

Cena do filme “O Céu e a Geleira”, de Luc Jaquet

Cigarro e câncer, uso de pesticidas, asbestos, chuva ácida, ozônio, mudanças climáticas… O que todos esses temas disparatados têm em comum? A resposta é direta e ao mesmo tempo preocupante: o uso de campanhas bem orquestradas para desacreditar a ciência em prol dos interesses econômicos da indústria.

Apesar de o conhecimento científico, nessas áreas críticas, ter sido sólido e bem embasado, houve uma forte campanha financiada pela indústria para desacreditar os fatos científicos e adiar a implementação de medidas regulatórias dos governos. O filme O Mercado da Dúvida descreve em detalhes as táticas e os interesses econômicos e políticos de empresas interessadas em suscitar dúvidas até então inexistentes para prolongar seus ganhos financeiros, expondo as práticas corruptas de multinacionais que visam somente o lucro imediato a qualquer preço.

O objetivo sempre foi criar e manter o que parece ser “um debate”, quando, na verdade, não havia debate real. Fomentou-se uma ilusão de dúvidas, atrasando a implementação de políticas públicas de controle do fumo ou da emissão de gases de efeito estufa. Em tom provocativo, satírico e divertido, O Mercado da Dúvida leva o espectador ao jogo do ilusionismo de ideias através de mágicas com cartas. O roteiro é inteligente e criativo, conectando os vários aspectos da questão de modo lúdico.

Desde a década de 50, já existiam evidências sólidas de que fumar causava doenças respiratórias e câncer. Parte das pesquisas responsáveis pelas descobertas foi feita pelas próprias indústrias tabagistas, que, coordenando longas campanhas, desacreditaram tais evidências por mais de 40 anos. Milhares de pessoas morreram vítimas do tabaco e as companhias lucraram trilhões de dólares continuando a vender cigarros, enquanto negavam que estes eram prejudiciais à saúde dos fumantes. A chamada “liberdade pessoal” era invocada para que não fossem aprovadas legislações de restrição ao fumo. Os argumentos também incluíam a luta anticomunista na época da Guerra Fria, chamando os cientistas antifumo de melancia: verdes por fora e vermelhos (comunistas) por dentro. Argumentos eram fabricados para confundir a opinião pública e desviar o foco do problema real.

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Cena do filme “O Mercado da Dúvida”

Somente em 1998 foi possível aprovar, no Congresso americano, leis que pelo menos alertassem os fumantes quanto ao risco que corriam. Os demais países implementaram políticas similares, mas, até hoje, em alguns países a legislação antifumo é precária, especialmente em países em desenvolvimento. O Mercado da Dúvida recorre à história e faz a ponte entre a luta contra o fumo e as mudanças climáticas.

A indústria do petróleo e carvão lançou mão de táticas muito similares às utilizadas pela indústria tabagista ao longo de mais de 20 anos, atrasando a discussão e, principalmente, a implementação de medidas regulatórias às emissões de gases de efeito estufa. O pagamento de pseudo-experts e a contratação de empresas especializadas em confundir a opinião pública, além do financiamento de meios de comunicação em troca da divulgação de informações falsas, estavam entre as táticas.

O termo inicial, “céticos do clima”, foi em dado momento substituído por “negacionistas das mudanças globais”, pois o debate não era sobre ciência e sim ideológico, sobre o pertencimento à tribos de direita, contra qualquer ação governamental. O grupo dos negacionistas americanos era numericamente muito pequeno e inexpressivo, mas muito presente na mídia, o que o fazia parecer numeroso. Por um tempo, vendeu-se uma ilusão, através da identificação de necessidades pessoais como “estar livre de regulações governamentais”, alimentando estas necessidades com truques de argumentação.

O combate às mudanças climáticas era vendido como ideologia conservadora, em um debate que não era científico, pois, sob a perspectiva da ciência, não havia “dois lados”. O que havia era um “outro lado” ideológico. Jornalistas eram enganados ou agiam deliberadamente, também assumindo que essa dualidade existia. Organizações norteamericanas de direita, como a Heartland Institute, George Marshall Institute ou Americans for Prosperity foram financiadas pela indústria dos combustíveis fósseis, para que promovessem campanhas de desinformação, tirando o foco das questões centrais associadas às mudanças climáticas.

Em tom crítico, O Mercado da Dúvida evidencia de maneira clara que cientistas não são necessariamente os melhores “vendedores” de ideias, ou seja, que não são os melhores comunicadores de suas próprias pesquisas, publicidade que deve ser feita por profissionais treinados para comunicar e não para fazer ciência. Outra discussão presente no filme diz respeito ao fato de que o americano médio prefere o “showman” ao cientista, pois acredita mais em quem o diverte do que em quem trabalha com fatos. Os jornalistas faziam o mesmo papel, sem checar as fontes ou apurar a origem de seus entrevistados. Jornalistas repetiam ao extremo termos inventados pela campanha de desinformação como o episódio do “Climategate”.

O filme traz também o debate de ciência versus regulação governamental, seja ela no cigarro, nas emissões de gases de efeito estufa ou em outras questões. O filme termina em tom otimista, ao afirmar que os fatos se sobrepuseram à propaganda e às mentiras. Contudo, não podemos esquecer que, no caso do fumo, os 40 ou 50 anos que a indústria do tabaco ganhou com a protelação de medidas regulatórias causaram a morte de centenas de milhares de pessoas, sem falar no enorme custo aos sistemas públicos de saúde. A indústria ficou com o lucro das vendas do cigarro e os custos dos tratamentos das vítimas tornaram-se públicos

O mesmo ocorre hoje com a questão das mudanças climáticas. A indústria dos combustíveis fósseis ganhou centenas de trilhões de dólares vendendo carvão e petróleo nas últimas duas décadas, quando já se sabia que seus lucros estavam alterando o clima do planeta. Será que o maior problema que temos hoje é a natureza do ser humano? Ou o sistema socioeconômico que domina nossas atividades? Essa é uma pergunta difícil de responder diretamente.

O Filme Isso Muda Tudo discute estas questões sob vários pontos de vista, ao colocar o combate às mudanças climáticas como questão estratégica para nós, humanos, não somente para proteger ursos polares. O foco do filme é a civilização que construímos e seu futuro, sob um ponto de vista positivo: confrontar as mudanças climáticas pode ser a melhor chance que já tivemos de construir uma sociedade melhor.

Desde o índio nativo no Canadá, que vê suas terras sendo apropriadas por multinacionais para extração de óleo de xisto, passando por questões de mineração na Grécia, usinas elétricas a carvão na Índia, até a poluição do ar na China, o filme trata de temas relacionados a um modelo de desenvolvimento que não queremos. Capitalismo versus clima seria o mote principal do filme. Fica claro que, no atual modo de produção, não temos saída, a não ser esgotar os recursos naturais do nosso planeta, incluindo água, ar e solo, em função do lucro “fácil e rápido”.

O filme trata de uma batalha que está sendo realizada em todo o planeta: ou tomamos de volta o controle dos recursos naturais dominados pelo capitalismo selvagem, ou vamos assistir a maior extinção já ocorrida nos 4.5 bilhões de anos de nosso planeta; é simples assim. Precisamos reduzir a emissão de gases de efeito estufa em cerca de 70 a 90% dos valores atuais, se quisermos estabilizar o clima da Terra e limitar o aumento de temperatura em 1.5 graus centígrados. A partir de 2050, será necessário gerar eletricidade quase que exclusivamente proveniente de fontes renováveis (solar, eólica, hidrelétrica, etc.) e reduzir drasticamente nosso consumo de recursos naturais. Isso irá requerer uma forte mudança socioeconômica e política.

Nosso planeta não tem o sistema de governança necessário para implantar medidas tão drásticas em tão pouco tempo. O planejamento econômico terá que mudar e o foco deve deixar de ser o lucro para priorizar a vida dos seres humanos. Vida com dignidade, sem fome e com mais equidade. Vamos conseguir realizar esta transição em duas gerações? Talvez. Isso Muda Tudo também termina de maneira otimista, mas deixa claro que serão enormes os desafios que a humanidade precisará enfrentar. Mudar de um sistema capitalista para qual novo sistema? O filme não arrisca um palpite. Para mudar tudo, precisamos de todos (To change everything, we need everyone): este é um dos princípios do filme. Seremos capazes de mudar fortemente o rumo do nosso planeta? Veremos em 2050…

A diversidade biológica de nosso planeta sempre foi chave para a evolução. É claro que os métodos utilizados para a produção alimentícia não são sustentáveis nem ao menos a curto prazo, além de trazerem consequências importantes, tanto para a biodiversidade da Terra quanto para vários outros aspectos ambientais. O filme Sementes do Tempo é centrado na história de Cary Fowler, um dos idealizadores do banco genético de Svalbard, Noruega, e discute criticamente a maneira como produzimos alimentos em nossa era. São aspectos pouco debatidos na mídia tradicional e mesmo nos órgãos governamentais, apesar de ser esta uma questão absolutamente chave para o futuro da humanidade.

A diversidade de alimentos que produzimos reduziu-se radicalmente ao longo das últimas décadas. Há bilhões de plantas da mesma espécie (quase idênticas) produzindo trigo, e, se alguma nova praga aparece, a vulnerabilidade de nosso sistema de produção alimentícia fica aparente. O mesmo ocorre com o milho, soja etc. Nossos sistemas de agricultura são artificiais e em nada lembram os processos naturais. Fazendeiros e empresas definem quais sementes serão utilizadas na próxima colheita através de métodos muito distintos de como o sistema natural funciona. Nesses sistemas, fazemos o papel da evolução, decidindo quais espécies devem sobreviver e quais espécies desaparecerão.

A indústria de sementes é um enorme motor de espécies a serem extintas. É uma “extinção em massa”, em larga escala, feita por nós; poucas pessoas se dão conta disso. É por isso que a originalidade deste filme é marcante: além de identificar um problema sério, também trabalha com uma possível solução, o que é um mérito importante. As mudanças climáticas estão alterando os padrões de chuva em várias regiões do planeta, e uma particular espécie usada agora pode não se adaptar às novas condições climáticas do futuro próximo. Algumas espécies atuais podem ter sua produtividade reduzida com um clima de 2 a 3 graus mais quente que o atual.  A agricultura moderna nunca enfrentou uma ameaça tão grande quanto as mudanças climáticas em curso.

Hoje, é necessário alimentar 7 bilhões de pessoas, e, em algumas décadas, esse número chegará a 10 bilhões. Precisamos produzir mais comida para mais pessoas de modo sustentável. Não será tarefa fácil, embora hoje sejam produzidos alimentos suficientes para exterminar a fome, a questão é também a distribuição equitativa da produção para estes 7 bilhões de pessoas. Algumas têm comida demais, outras, de menos. Os aspectos socioeconômicos distorcem a distribuição de alimentos em nosso planeta. O equilíbrio entre população, agricultura e meio ambiente é crítico, e não há uma solução clara para um futuro sustentável e em equilíbrio com o planeta. O termo “Segurança Alimentar” é recente e fonte de guerra e tensão entre países e sistemas produtivos. Não se trata apenas de aumentar a produção de alimentos (arroz, feijão, trigo etc) com melhoras na produtividade, pensando em toneladas por hectare, mas sim em pensar a “nutrição por hectare”, um novo conceito.

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Cena de “Sementes do Tempo”

Nem sempre mais é melhor para o complexo sistema socioeconômico que estruturamos. Precisamos também pensar em água. Água é obviamente essencial para a agricultura, e, em algumas regiões, é um bem tão escasso que tem tanta importância quanto a produção de alimentos. A agricultura usa globalmente cerca de 70% da disponibilidade de água. Em algumas regiões não se pode produzir alimentos, pois isso impediria o fornecimento de água para a população das cidades próximas. A agricultura, assim, deve competir com o fornecimento de água às cidades e pessoas.

Svalbard, no Norte da Noruega, é uma das regiões mais remotas e frias do planeta. O frio auxilia a preservar sementes, o que faz de Svalbard um local ideal para a instalação de um banco mundial de sementes, ou seja, um repositório das espécies de plantas cultivadas hoje. Esses milhões de sementes bem guardadas são um tesouro inestimável para as futuras gerações, em caso de um desastre humano. O depósito mundial de sementes de Svalbard funciona, portanto, como uma apólice de seguro para as futuras gerações de nosso planeta.

Sementes do Tempo é um documentário importante para debatermos a necessidade de conservação de recursos genéticos, que deve certamente ser uma grande prioridade para nossos governos, tão grande quanto o combate às mudanças climáticas. O grau de perda de biodiversidade que causamos ao longo dos últimos séculos, com a alteração dos principais biomas da Terra, é uma questão de extrema relevância, e com certeza impactará as gerações futuras de todas as espécies do planeta, das bactérias e plantas à nossa própria espécie. Desde 1903, cerca de 83% da variedade de cultivares tornou-se extinta devido à seleção que fazemos.

Além das questões citadas, há o uso excessivo de fertilizantes, as emissões de gases de efeito estufa pelo setor agrícola, muito grande no Brasil, e também a demanda de energia para produção de alimentos. A maior parte do fertilizante nitrogenado usado na agricultura provém do gás natural, um combustível fóssil. Com a necessária redução de emissão de gases de efeito estufa, a questão é: como sustentar o atual sistema agropecuário em uma nova sociedade de baixo carbono e uso mais eficiente de energia? Os estoques regulares de alimentos são pequenos (comparados com os estoques de combustíveis fósseis, por exemplo), e isso traz instabilidade nos preços e na disponibilidade. Os recursos financeiros para pesquisas científicas que buscam otimizar a produção de alimentos neste novo cenário global são irrisórios se comparados à necessidade.

O roteiro de Sementes do Tempo é extremamente bem realizado e dinâmico, mostrando várias facetas do dilema, desde plantadores de milho nos Andes peruanos, até os escritórios da FAO em Genebra. O roteiro deixa muito claro a urgência do tema e o tamanho da problemática. Não toca, porém, em questões importantes, tais como a dominação de grandes multinacionais (Monsanto, por exemplo) no mercado de produção de sementes, e as sementes geneticamente modificadas. O filme também não trata da injusta distribuição regional de alimentos e do desperdício de alimentos nos países desenvolvidos. Mas estas “ausências” não comprometem a qualidade do filme, um alerta e um ponto de partida importante para a estruturação de um sistema de governança mundial acerca da conservação da biodiversidade, visando garantir às futuras gerações o tão necessário alimento.

Poucas pessoas conhecem o continente Antártico em si, embora a Antártica seja fundamental na regulação do clima da Terra e no controle do nível do mar, devido à enorme quantidade de gelo nela contida. O filme No Limite da Antártica mostra a batalha de cientistas para entender os processos críticos que estão mudando a paisagem antártica. São desafios enormes, inclusive sob o aspecto operacional: cientistas correm real perigo de vida neste continente inóspito e inacessível.

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Cena de “A Revolta dos Yes Men”

A fotografia do filme é espetacular, mostrando que a Antártica é selvagem, diferente de qualquer outra região do planeta, e única: a Antártica e o Ártico são as duas regiões que mais rapidamente estão mudando, com aquecimento médio seis vezes maior do que o restante do globo. O gelo e a neve refletem eficientemente a radiação solar, e, quando este gelo derrete, o escuro oceano é exposto, absorvendo muito mais radiação solar, o que causa a intensificação do aquecimento global e o derretimento ainda mais acentuado das geleiras.

O documentário mostra também as rápidas mudanças na vida biológica da Península Antártica, como a alteração populacional e alteração das características do krill, do fito plâncton, dos pinguins, das baleias, dos elefantes marinhos, das focas e outras espécies importantes no ecossistema antártico. A população de pinguins Adélie, por exemplo, foi reduzida em 90% na Península Antártica. A quantidade de água armazenada em forma de gelo nas geleiras do Oeste da Antártica é tão grande que o derretimento somente da área em questão pode subir o nível do mar em vários metros, afetando drasticamente todas as cidades e áreas costeiras de nosso planeta. Tomara que possamos evitar tamanha catástrofe, preservando o clima global e o meio ambiente antártico.

Uma vida dedicada a entender a Antártica: o glaciologista francês Claude Lorius passou o inverno na região pela primeira vez em 1957. Podemos imaginar a vida em um meio tão inóspito seis décadas atrás, sem as novas tecnologias hoje disponíveis. Era um desafio enorme, com riscos constantes, somente pelo esforço de entender os processos que regulam o clima do continente mais inabitável da Terra. Em várias expedições realizadas mais tarde, Claude Lorius desenvolveu técnicas revolucionárias para analisar a composição atmosférica e a temperatura ao longo dos últimos 800.000 anos. As técnicas por ele desenvolvidas revolucionaram nosso entendimento das relações entre o clima e a composição da atmosfera do planeta. Através de minúsculas bolhas de ar, toda a história climática da Terra poderia ser revelada. Foi possível, assim, analisar o ar que os romanos respiraram no esplendor de seu império.

O documentário tem uma fotografia espetacular e mostra filmes feitos em Super-8, com importante conteúdo científico. Apresenta aventuras dignas de um “Indiana Jones da vida real”. Em suma, leva-nos a refletir sobre nosso papel e nossa fragilidade em ambientes remotos e em todo o planeta. Hoje com 83 anos, o glaciologista Claude Lorius recentemente escreveu o livro “Viagem ao Antropoceno”, no qual discute nossa época, na qual os homens tomaram conta do clima e da maior parte dos recursos naturais. Nenhuma outra espécie, ao longo da evolução terrestre, havia adquirido a propriedade de mudar a composição atmosférica. Isso é o que estamos fazendo no Antropoceno, e Claude Lorius foi um dos primeiros a alertar sobre essa nova era geológica e os perigos que ela acarreta.

O cientista ganhou diversos prêmios pelo seu trabalho, entre eles o “Blue Planet”, mas seu maior legado foi fundar uma nova ciência, a glaciologia, que faz a ponte entre o clima passado e o presente. Lorius foi também cientista muito ativo no IPCC e nas conferências governamentais que estruturaram o acordo de Paris. Vivenciou desde as descobertas iniciais associadas às mudanças climáticas até as últimas negociações para tentar estabilizar o clima da Terra. Um personagem interessante, importante e que realizou e protagonizou descobertas chave na ciência do clima, além de ser um explorador da ciência, com forte obstinação e criatividade. O filme apresenta uma biografia realmente extraordinária.

Ativismo divertido e bem-humorado. Possível? Sim, como mostra claramente o filme A Revolta dos Yes Men. Um documentário sobre dois heroicos ativistas brincalhões e suas táticas inusitadas para ridicularizar governos e multinacionais pela ausência de ações em questões importantes como a das mudanças climáticas. A dupla promove coletivas de imprensa falsas em nome da Câmara de Comércio Americana – uma organização que faz lobby para a indústria -, referente à decisão de promover uma taxa de emissão de carbono, o que é tabu para a indústria estadunidense. Os ativistas foram processados, porém, mais tarde, a US Chamber of Commerce retirou a queixa.

Ambos são especialistas em colocar burocratas em situações difíceis e hilárias. O movimento Occupy Wall Street também é discutido, com os interesses e a corrupção no meio financeiro e corporativo, e a tentativa de mostrar ao público pelo menos parte desta corrupção. O filme às vezes infantiliza o ativismo, quando, por exemplo, doa um urso polar ao zoológico de Amsterdam em nome da Royal Dutch Shell, enquanto ela explorava petróleo no Ártico. Mas a diversão é garantida, com efeitos práticos de eficiência duvidosa.

Além das gozações corporativas, o filme também trata da vida pessoal dos dois personagens e suas dificuldades em manter uma vida “normal” com suas famílias.  Claramente, A Revolta dos Yes Men tem um sentido saudável de absurdo, muito bem utilizado para salientar a hipocrisia e a corrupção no mundo dos negócios. Eles mostram que há espaço para humor no mundo do ativismo ambiental, mas, além disso, que a sátira pode ser uma forte ferramenta para mudanças sociais e políticas.

 

* Paulo Artaxo é físico, mestre em física nuclear e doutor em física atmosférica. Trabalhou na NASA (EUA), Universidades de Antuérpia (Bélgica), Lund (Suécia) e Harvard (EUA). Atualmente é professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia de Ciências dos países em desenvolvimento (TWAS) e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e de 7 outros painéis científicos internacionais. Trabalha com física aplicada a problemas ambientais, atuando principalmente nas questões de mudanças climáticas globais, meio ambiente na Amazônia, física de aerossóis atmosféricos, poluição do ar urbana e outros temas.

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