Mostra Ecofalante se consolida como o maior festival de cinema ambiental do país

5o Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

Em sua quinta edição, a mostra manteve o crescimento de público e ampliou o alcance

 O cinema como termômetro socioambiental do mundo. Como inspirador de reflexão e debate. Como tradutor da ciência. Como iniciador de temas pela imersão. E claro, como atividade lúdica. Essa é a tônica da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, que em sua quinta edição mobilizou 22.389 pessoas. Um aumento de cerca de 80% em relação à edição anterior.

Estudantes de ensino médio, universitários, ambientalistas, ativistas, cientistas, pesquisadores, cineastas, jornalistas, professores, cinéfilos e público em geral participaram de cerca de 300 sessões ao longo da Mostra, que exibiu mais de cem filmes em salas de cinema, colégios, universidades, Fábricas de Cultura, CEUs e Escolas Técnicas Estaduais (ETECs).

Temas urgentes como o crime ambiental de Mariana, a questão da terra indígena, mudanças climáticas, especulação imobiliária, indústria da moda, economia solidária, ativismo, dentre muitos outros, mobilizaram cerca de seis mil pessoas ao longo da Mostra. Foram realizados 51 debates e/ou mediações sobre esses e muitos outros temas.

A ampliação do alcance da Ecofalante levou os filmes para além da Avenida Paulista e do centro expandido da cidade. A área de abrangência inclui 550 km², se espalhando pelas macro-zonas de São Paulo. Em Fábricas de Cultura em Itaim Paulista, Belém, Sapopemba, Vila Curuçá, Cidade Tiradentes, Jaçanã, Jardim São Luís, Vila Nova Cachoeirinha, Brasilândia e Capão Redondo. Em 12 ETECs localizadas nas mais diversas regiões da cidade. Nos Centros Educacionais Unificados (CEUs) em Heliópolis, Campo Limpo, Freguesia do Ó, Pirituba, Penha, São Mateus, Capela do Socorro e Butantã.

“Uma das características mais marcantes dessa quinta edição da Mostra Ecofalante foi seu processo de expansão, consolidando-a como maior o festival de cinema ambiental do Brasil. Foram mais de 40 pontos de exibição na cidade de São Paulo, num compromisso de levar produções de extrema qualidade para as periferias, democratizar seu conteúdo”, avalia Chico Guariba, diretor da Mostra. “Não adianta fazer só ali, na Av. Paulista. Por isso fizemos diversas parcerias, com instituições de ensino, Fábricas de Cultura e outros, a fim de ampliar esse público da Mostra e debater os problemas com a população. Porque a Mostra, muito mais do entretenimento, é cultura, educação e cidadania. Nos interessa trazer essas discussões e debatê-las com a sociedade”, define.

alcance

Namoro com a ciência

Uma das vocações da Mostra, que já vinha se desenvolvendo nos últimos anos e que ganhou mais força nessa quinta edição, é a capacidade de ajudar a ciência a dialogar com o público em geral. Questões ainda pouco absorvidas como as mudanças climáticas, por exemplo, ganham um entendimento mais fácil com a exibição de filmes temáticos seguidos de debate. Esse ano a Mostra promoveu um debate sobre esse tema, que contou com a presença de um dos maiores cientistas brasileiros, Paulo Artaxo, premiado físico brasileiro que integra o Painel Intergovernamental da Mudança Climática da ONU. Artaxo produziu também o texto de referência para o catálogo da Mostra, e mostrou-se muito animado com as possibilidades de interação entre cinema e ciência.

Para Claudio Angelo, jornalista da área ambiental e autor do recém-lançado “A Espiral da Morte: Como a Humanidade Alterou a Máquina do Clima”, um dos atributos da Mostra é justamente facilitar a comunicação de fatos e realidades comprovadas pela ciência para a população geral. Esse foi dos tópicos debatidos pela mesa composta por ele e pelo físico Paulo Artaxo. “No geral, cientista é um sujeito muito técnico, muito chato, que não sabe se comunicar com o público. Nós vemos hoje os efeitos dessa incompetência comunicacional na falta de ação da sociedade sobre as questões ambientais. Então quando você traz isso para o cinema, para pessoas que não são os convertidos de sempre, o resultado é riquíssimo, e onde você pode ter alguma chance de ver transformações acontecendo”, declarou Angelo.

Ricardo Antunes, um dos principais nomes da sociologia do trabalho no país, participou de debate sobre Economia Solidária e ficou surpreso com a proposta da Mostra: “Achei excelente, primeiro pela qualidade dos filmes. Segundo, por ser, no mundo global das mercadorias, uma mostra gratuita. E terceiro, por suscitar um debate, convidando pessoas para provocar o público de forma que ele se solte e participe de um debate mais amplo e coletivo”, avaliou.

O Circuito Universitário, programa da Mostra que vem crescendo e que promove a exibição de filmes e debates em instituições de ensino superior, deverá ampliar ainda mais o alcance nas próximas edições, sob essa perspectiva, facilitando o acesso a esses filmes como ferramenta de trabalho para os professores nos mais diversos cursos. Esse ano mais de 13 mil estudantes, entre universitários e ensino médio, assistiram a filmes seguidos de debates.

Os laços com as universidades foram ainda mais reforçados com o lançamento do Concurso Curta Ecofalante, voltado a estudantes universitários e de escolas técnicas, buscando incentivar a produção e proporcionar espaço para exibição. Foram recebidos trabalhos de 20 instituições de ensino, de diferentes partes do Brasil. Cinco curtas foram selecionados e exibidos durante a Mostra, considerados os melhores em qualidade técnica e relevância do tema. Foram concedidos prêmios de júri e de público.

“É muito importante para a gente ter uma janela de exibição, porque fizemos um trabalho semestral, sem pretensão de festival, e que acabou sendo selecionado”, disse Gustavo Rugiano ao agradecer pelos prêmios de público e menção honrosa que o filme “Travessia – Muita Vida Após a Balsa” (Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo) recebeu. O curta “Verde Chorume” (FAAP) levou o prêmio de melhor filme pela escolha do júri. “Não consigo nem começar a expressar o quanto estou feliz de estar aqui”, contou Roberta Bonoldi no encerramento. “É a primeira vez que o filme tem a oportunidade de ser exibido em São Paulo, onde ele foi filmado, e fico feliz de saber que a mensagem foi passada. Ele foi feito com muito carinho e cuidado, num processo que começou em 2013, e vai fazer um ano de finalização. Nada melhor do que esse prêmio para comemorar”, completou.

5o Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

A equipe de “Verde Chorume” | 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental | Fotos: Aline Arruda e Mario Miranda

Janela para o mundo latino-americano

A Competição Latino-Americana, em seu terceiro ano na Mostra, vem recebendo um número crescente de inscrições: esse ano foi registrado um aumento de 80% de inscritos. Foram 225 filmes, dos quais a equipe selecionou 22 para exibição. A diversidade de temas e nacionalistas permite compreender melhor o cenário latino contemporâneo, contribuindo para identificar elementos que tornam esses países tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diversos.

Em bate-papos, diretores de filmes da Competição Latino-Americana tiveram a chance de interagir com o público e discutir não só os problemas denunciados em seus filmes, como o próprio processo de produção cinematográfica. “No mundo todo o problema da distribuição é grande. Muitos filmes são feitos, mas pouco têm a sorte de ser exibidos, de chegar no tão desejado público. E na Ecofalante eles não só chegam como atingem um público direcionado, crítico, que alimenta nossos processos”, constatou a colombiana Marcela Lizcano, diretora de “Isolados”.

A Mostra promoveu bate-papos com os diretores dos filmes “Isolados” (Marcela Lizcano – Colômbia, Equador, México), “Jaci: Sete Pecados de uma Obra Amazônica” (Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros – Brasil), “Sunú” (Teresa Camou – México), “Volume Vivo: A Água de Dentro” (Caio Silva Ferraz – Brasil), “Dauna: O Que o Rio Leva” (Mário Crespo – Venezuela) e “O Homem do Saco” (Felipe Kfouri e Rafael Halpern – Brasil).

O júri da Competição Latino-Americana desse ano foi composto por Aurélio Michiles, Solange Alboreda e Maria Elisabeth de Sá-Freire. “Jaci: Sete Pecados de Uma Obra Amazônica” foi escolhido por eles como melhor longa. A escolha da produção reflete uma delicada questão com a qual o Brasil lida ao longo das últimas décadas, com conflitos de diversos tipos: a construção de mega hidrelétricas na região da Amazônia. Durante quatro anos a equipe do filme visitou Jaci, pequena cidade na Amazônia transformada depois do início da construção da hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, e a chegada de 20 mil trabalhadores, coletando histórias de conflito, solidão, pressão, medo e corações partidos.

Mário Crespo recebeu menção honrosa pelo filme “Dauna: O que o Rio Leva” (Venezuela). A produção concentra-se na história de Dauna, cujo talento para aprender línguas e o interesse pelo conhecimento foram incentivados pelo pai desde a infância, mas cuja vocação entra em conflito com as tradições ancestrais de sua cultura, nas quais o lugar e a função da mulher na sociedade são rigidamente definidas. Isso coloca em xeque sua relação com a comunidade e com o mundo.

“Sunú” (México) foi escolhido pelo público o melhor longa da Competição. “Receber um prêmio do público é uma grande honra, pois, no final, fiz meu filme para o público, para toda a gente”, comemora Teresa Camou. “Agradeço a todas as pessoas que foram ver, espero que muito mais vejam, e dedico essa mensagem a todos os camponeses do mundo, que é o povo que nos alimenta”. O longa viaja pelo México contando histórias de um mundo rural ameaçado, mas que segue em resistência.

Foram premiados também os curtas “Feito Torto Para Ficar Direito” (Brasil – prêmio de júri) e “O Homem do Saco” (Brasil – prêmio de público). Menções honrosas foram concedidas aos filmes “Ameaçados” (Brasil) e “Sucata” (Uruguai).

Homenagem ao patrono do ambientalismo brasileiro

Muita gente se espantou quando a Mostra Ecofalante anunciou o homenageado dessa edição: não seria um cineasta nem um documentarista, e sim um ambientalista. Nada menos que Paulo Nogueira-Neto, considerado o patrono do ambientalismo brasileiro.

A presença de Nogueira-Neto foi uma oportunidade extraordinária de prestar homenagem a uma figura tão relevante para o meio ambiente. Uma sala cheia no Cine Caixa Belas Artes ouviu as histórias contadas por João Paulo Capobianco, Mário Mantovani, Marilda Cortopassi-Laurino e Sávio de Tarso, que falaram das Conquistas do ambientalista na implantação de políticas públicas pela preservação de biomas, sua enorme contribuição para o movimento ambientalista brasileiro, seu trabalho de pesquisa com as abelhas sem ferrão e sua marcante caraterística conciliadora, que permitiu avanços em períodos retrógrados, como a Ditadura Militar.

Nogueira-Neto contou muitas histórias ao longo da noite, prestando um testemunho incrível da história do ambientalismo no Brasil, que ele mesmo ajudou a construir – ainda numa época, como ele mesmo conta, em que os ambientalistas brasileiros eram tão poucos que cabiam em uma Kombi.

5o Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

5o Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental – Homenagem a Paulo Nogueira-Neto | Fotos: Aline Arruda e Mario Miranda

“Para a Mostra é uma honra poder homenagear uma figura tão importante para a história do ambientalismo brasileiro, ainda vivo e lúcido. Paulo Nogueira-Neto fez muito pelo meio ambiente do país num momento em que quase não se falava nisso por aqui e muito pouca gente saía em sua defesa. Seu testemunho e atuação histórica devem ser preservados e divulgados ao máximo para as novas gerações”, diz Chico Guariba.

A 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental foi uma realização da ONG Ecofalante e do Programa de Apoio à Cultura (ProAC) do Governo do Estado de São Paulo, com patrocínio da White Martins e apoio da Goodyear, Itaipu Binacional e Reciclo Pepsico. A correalização é da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Spcine – Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo e Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo.

Teve apoio apoio institucional do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Embaixada da França no Brasil, Institut Français, La Cinémathéque Française, Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo Turismo (SPTuris), Observatório do Clima, SOS Mata Atlântica, Greenpeace, Instituto Socioambiental (ISA), Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Instituto Akatu, Instituto de Energia e Ambiente (IEE)/USP, Governos Locais Pela Sustentabilidade (ICLEI), Matilha Cultural, Fábricas de Cultura (Poiesis e Catavento), Rede Nossa São Paulo, Instituto Envolverde, Videocamp, Catraca Livre, Conexão Planeta e Horizonte Educação e Comunicação.

Confira depoimentos sobre a Mostra no nosso canal no youtube: https://goo.gl/YVdP89

 

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