A responsabilidade com as gerações futuras

ROBERTO KISHINAMI

O eixo temático de Contaminação da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental traz uma ótima e diversificada seleção de filmes que retratam a crise ambiental do século XXI. Os impactos de atividades humanas sobre o meio ambiente ocorrem há muito tempo. Registros paleontológicos mostram isso já nas mais antigas civilizações, algumas delas inviabilizadas por destruição ambiental.

O que há de novo, entretanto, é a magnitude desse impacto. Nossa civilização é marcada pela sofisticação tecnológica, baseada no conhecimento de como funciona a natureza, nos níveis moleculares, atômicos e subatômicos. Essa sofisticação, ao que parece, não foi acompanhada de maior compreensão da vida como um tecido, em que cada parte, por minúscula e distante que esteja de nós, é também parte de estruturas que nos sustentam. Como resultado, a crise até há pouco caracterizada como ambiental é, no conjunto, uma crise civilizatória. Componentes dessa crise generalizada estão expostos nos sete filmes dessa temática em diferentes perspectivas e linguagens.

Antes dos comentários, uma declaração de interesse pessoal. Dentre as obras, são particularmente tocantes para este comentarista as duas que se referem ao desastre nuclear em Fukushima. Pertenço à terceira geração de japoneses no Brasil (sansei) e meu avô paterno era originalmente da cidade de Fukushima, capital da província de mesmo nome onde estão situadas as plantas nucleares. Passado mais de um século desde essa migração, vários dos primos distantes estão envolvidos pelo pós-desastre de Fukushima, dedicados a atividades comunitárias de apoio ou assistência.

As duas obras sobre a cidade – Zona Proibida e Terra Abandonada – enfocam o pós-desastre em ângulos complementares. A locação para ambas é o município de Tomioka, local das quatro plantas nucleares atingidas pelo terremoto e maremoto (tsunami) de 11 de março de 2011. Uma personagem comum a ambas é Naoto Matsumura, agricultor de 57 anos que, junto com seu pai e seu cachorro, se recusou a sair da zona de exclusão de 20 quilômetros ao redor da planta nuclear 1 (daiichi), ali permanecendo para alimentar os animais de estimação e de criação abandonados. Matsumura tem viajado para depoimentos em audiências internacionais sobre problemas com a indústria nuclear.

Para os ex-moradores de Tomioka, todos vivendo fora do município, com parentes ou em lugares alugados com a ajuda do governo central, as dúvidas sobre o futuro são excruciantes. Há uma pressão do governo central para voltarem gradualmente às áreas de origem, fora da zona de exclusão. Levantamentos recentes mostram que 40% deles, principalmente os jovens, não querem voltar. Como deixam claro vários dos depoimentos capturadas por essas obras, que futuro há para uma região contaminada, com seus produtos agrícolas banidos e população envelhecida e em decréscimo?

Igualmente forte é a pergunta sobre como viver não tendo mais um lugar ao qual se pertence? Para entender esse drama, presente nos filmes, é preciso ter a noção de pertencimento como constitutiva da psique individual e, no caso do Japão, nacional. Isso se aplica tanto ao local em que se vive como à empresa em que se trabalha. A primeira geração de japoneses no Brasil, por exemplo, sempre se referiu a seu local de origem – à sua vila em particular – como aquele a que pertenciam  e voltariam, se e quando pudessem. Por essa razão, o Brasil – São Paulo, mais precisamente – é o local em que a comunidade japonesa ainda preserva danças, cantos, comidas, sotaques e quase dialetos de comunidades que já não existem em seus locais de origem.

Uma personagem oculta nessas obras é a TEPCO – Tokyo Energy Power Company – que é dona e operadora das plantas nucleares no Japão, incluídas as de Fukushima. A resposta dela à declaração de Naoto Matsumura de que não deixará a zona de exclusão é particularmente reveladora, e expõe a fria lógica que tem guiado as decisões governamentais. Um fato novo no Japão é a desconfiança no governo por parte da população, bem como a raiva dirigida à TEPCO.

Há muitas lições a tirar do desastre em Fukushima, bem como da maneira como as pessoas respondem às suas consequências. Um exemplo é a presença dos dosímetros entre os moradores. Quantos de nós nos conformaríamos a entrar em uma zona contaminada, medindo e registrando a dose de radiação que está adentrando seu corpo? Uma explicação óbvia é a falta de alternativa. A diferença é que essa falta não é simultânea à busca de alternativa. Não, as pessoas não as buscam. Para elas, ou a vida se passa ali ou em nenhum outro lugar.

Outra obra sobre pós-desastre nuclear é o filme O Suplício: Vozes de Chernobyl baseado no livro “Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear”, escrito pela jornalista Svetlana Alexievich, ucraniana Prêmio Nobel de literatura em 2016, que entrevistou centenas de sobreviventes da catástrofe em 25 de abril de 1986, quando explodiu um dos quatro reatores nucleares na localidade de Pripyat (4 km da usina), no município de Chernobyl, situado a 15 km da usina e a 110 km de Kiev. Essa catástrofe, similar à de Fukushima apesar das diferenças em tecnologias do reator nuclear, implicou a retirada de 130 mil pessoas, quase todas de Pripyat, nos dez dias que se seguiram à explosão. Passados 30 anos, a região de exclusão (30 km ao redor da usina sarcófago) é vigiada por patrulhas armadas e tem poucos moradores desde o desastre, a maioria envolvida em atividades de limpeza. Como ocorre em Fukushima, as autoridades procuram estimular a reocupação de áreas fora da área de exclusão.

A linguagem cinematográfica aqui é mais elaborada e a presença das crianças é, ao mesmo tempo, suavizada e realçada. Seu enredo é guiado pelo significado da vida pós-desastre: falo do amor ou da morte? Há diferenças no substrato cultural que dialoga com essas obras. Enquanto em Chernobyl a tragédia é individualizada, em Tomioka as questões têm significado coletivo. A morte, sempre inevitável, mas no pós-desastre nuclear acompanhada de sofrimento, nos coloca frente à responsabilidade com as gerações que vêm depois de nós.

Um fato que não é registrado em nenhuma das obras sobre os desastres nucleares é o seu alcance para além das fronteiras nacionais. Por causa de Chernobyl, em vários pontos da Europa a radiação de fundo (background natural) aumentou pela presença de radioisótopos levados pelos ventos e chuvas. No caso de Fukushima, os materiais radioativos tanto nos solos como nas piscinas de combustíveis usados podem estar fluindo para o oceano a taxas desconhecidas. No oceano, podem entrar por cadeias tróficas e se espalhar para outras regiões do planeta.

O peso dessa responsabilidade, com os danos ambientais que temos provocado em escala global, fica claro quando se percorre as demais obras dessa temática. A contaminação ambiental por poluentes persistentes – reconhecidos há décadas como disruptores hormonais, cujo maior efeito deletério ocorre nas crianças, além dos efeitos carcinogênicos e mutagênicos em todos – é o tema de Cheirando Mal, que persegue a cadeia de responsabilidades entre o consumo e a produção dessas substâncias.

O enredo deixa clara a onipresença dos poluentes persistentes: nas roupas que vestimos, nos alimentos que consumimos, na água que bebemos e no ar que respiramos. Quem deveria nos proteger? No caso dos EUA, a EPA – Environment Protection Agency, e a FDA – Foods and Drugs Administration. No Brasil, funções são divididas entre o CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, e a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgãos nacionais de meio ambiente. Em Cheirando Mal, o périplo que começa com um pai preocupado com os componentes químicos presentes num par de pijamas para suas filhas gêmeas – cuja mãe morreu jovem por conta de um câncer bastante agressivo – descortina as falhas na legislação e regulação criadas pelo lobby das indústrias químicas. A ACC – American Chemical Council é particularmente exposta em sua responsabilidade por essa situação. No Brasil, tanto a EPA como a FDA são reconhecidas como “selo de qualidade” e frequentemente citadas como fontes de regulação eficazes, tanto pelos governos como pelas indústrias, que aliás são, via de regra, multinacionais. Esse filme deixa claro que precisamos mudar essa atitude.

Dos filmes desse eixo, O Rio Jarcom, de Israel, é, certamente, o menos crítico. Seu tema é o principal rio de Israel, o Jarcom, que cruza a capital Tel Aviv. Um paralelo pode ser feito com os vários rios de capitais brasileiras, como o Tietê e o Pinheiros de São Paulo ou o Capiberibe de Recife. No caso israelense, o esforço para sua descontaminação seguiu-se a um desastre em que parte da delegação de atletas australianos morreu ao cair no rio pelo rompimento de uma ponte provisória. As mortes, no caso, foram causadas pela contaminação das águas por pesticidas e químicos despejados juntamente ao esgoto. Nada diferente do que ocorre nos nossos rios. A diferença é que ali, após o desastre, um programa de décadas conseguiu restituir o rio a uma condição melhor.

O que não é explorado nesse filme, entretanto, á a importância da água nos conflitos entre palestinos e israelenses. Em O Rio Jarcom, as referências ao conflito são veladas – terroristas árabes – e o fato de que os assentamentos de israelenses ao longo do rio foram excluindo progressivamente os palestinos de suas terras não estão presentes. Esse conflito é atual, uma vez que os assentamentos condenados pela comunidade internacional na faixa de Gaza, por exemplo, repetem o mesmo processo: são construídos de forma a controlar o acesso à água, inviabilizando a permanência das comunidades palestinas, que são, ainda, confinadas por muros a la Trump.

Uma obra militante e propositiva vem com Até o Fim da Terra, cuja solução para o esgotamento da capacidade de reposição dos recursos naturais, pelo planeta, é o degrowth (decrescimento). Tema atual no mundo dos combustíveis fósseis, cuja extração terá de ser eliminada até meados do século se atendermos a ciência sobre as mudanças climáticas globais. Por último, uma obra lírica e ao mesmo tempo chocante vem com Mar Ensurdecedor, uma boa sequência de imagens e textos sobre como a poluição sonora – pela propulsão de embarcações gigantes, pelos sonares de uso militar e pelas explosões em estudos de prospecção de petróleo – afeta mortalmente os cetáceos. Na base desse impacto está um simples fato físico. O som se propaga na água com muito menos dissipação ou perda de energia do que no ar. Qualquer som viaja na água a velocidade maior que no ar e alcança distâncias muito maiores. Por isso, animais aquáticos têm sistemas auditivos e sensoriais muito mais desenvolvidos e, em contrapartida, mais sensíveis a sons.

Um problema comum aos impactos humanos sobre os diversos ambientes ou ecossistemas, enfocados nessa mostra, é a falta de um acordo internacional para controlá-los ou eliminá-los. As mudanças climáticas já são objeto de convenção internacional – e o Acordo de Paris é o seu mais recente desdobramento – devendo resultar no fim da extração de combustíveis fósseis até a metade do século. Mas a produção e disseminação de poluentes persistentes; a fissão de materiais nucleares com a produção crescente de radioisótopos tóxicos, perigosos e de vida muito longa; a contaminação e a apropriação de fontes de água potável e a poluição dos oceanos, permanecem sem tratados ou acordos internacionais que as disciplinem ou, idealmente, promovam o seu fim.

Mais uma tarefa que deixamos para as próximas gerações?

 

ROBERTO KISHINAMI é mestre em Física pela USP e coordena o programa de energia do Instituto Clima e Sociedade. Kishinami foi diretor executivo do Greenpeace Brasil por sete anos e consultor em energia, no setor privado, por 25 anos.

 

* Texto produzido orginalmente para o catálogo da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada de 1º a 14 de junho de 2017, em 30 salas de exibição em São Paulo. Acesse www.ecofalante.org.br/mostra

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