Entre os mitos da pós-comida

ROBERTO SMERALDI

Se uma difusa síndrome contemporânea é a de construir mitos em relação ao alimento, o conjunto de filmes selecionado para esta temática da 6ª Mostra Ecofalante representa uma boa amostra de crenças, convicções e rótulos que caracterizam a atualidade. Ou melhor, a atualidade daqueles 3/4 da humanidade que se livraram de alguma forma da principal preocupação que marcou todas as fases dos cerca de 400 mil anos de evolução de nossa espécie: garantir suficiente comida para a sobrevivência própria e de sua família.

Parece que o feito histórico de superar a síndrome da fome gerou – nos indivíduos assim como nas sociedades com acesso a tal privilégio – uma espécie de maldição do dia seguinte, que resulta em relações doentias, mal resolvidas e até grotescas com a comida. Como se não estivéssemos preparados para lidar com a libertação da escassez, na hora em que poderíamos gozar de relativa tranquilidade nutricional perdemos a consciência e o controle do ato de comer, em suas diversas dimensões. Aquela ambiental, seja em relação aos impactos da produção, seja da distribuição, consumo e pós-consumo. Aquela econômico-produtiva, por falta de articulação das cadeias produtivas e das enormes ineficiências que resultam em perdas e desperdício. Aquela cultural, com distanciamento ou até separação entre os elos da cadeia de valor, além de reduzida capacidade de gerar, valorar e apreciar a qualidade de produtos e processos. Aquela da saúde, com a difusão de distúrbios que atingem dimensões às vezes pandêmicas.

Os cinco filmes apresentados nesta seção parecem – neste quadro – complementares, se não idealmente concebidos como um único grande script em forma de mosaico. Todos refletem e apresentam o universo dos mitos que tornam as sociedades do início do milênio incapazes de lidar com os desafios sociais da comida, assim como tornam os indivíduos incapazes de lidar com os desafios da comida no cotidiano da vida privada.

A falta de transparência sobre origem, conteúdo, custo do que comemos… é o caldo de cultura em que prolifera qualquer ilação, generalização e pós-verdade. Somos terrivelmente vulneráveis ao Big Food, de um lado, enquanto de outro nos iludimos em reagir a partir da adoção de comportamentos e modismos que, na melhor das hipóteses, satisfazem apenas os que os praticam ou pregam.

Os filmes variam na abordagem: de um lado alguns documentários mais ou menos clássicos (Os Libertadores, Sustentável e Batalha Inuk), do outro um documentário com algo de ficção (Desejo de Carne) e no meio uma espécie de reality itinerante (Insetos! Uma Aventura Gastronômica). O curioso é que a fronteira entre tais categorias nem sempre é nítida, o que remete também à forma em que se dá a relação homem-alimento no mundo retratado por tais obras, oscilando entre realidade e ficção.

Mesmo quando prevalece uma abordagem militante, de contestação explícita, os modelos alternativos não deixam de ser caracterizados com consciente ou involuntária ironia a respeito dos mitos que reproduzem. Um deles é o da nostalgia como ideologia, da saudade do que jamais se conheceu, do ideal de bons tempos passados. É um mito que se reproduz como reação à desilusão com as promessas da massificação, da produção e distribuição em grande escala, da tecnologia agroindustrial que propõe como comida algo que a avó não reconheceria como tal.

Paradoxalmente, os atores e tipos sociais que se identificam nesse dualismo são exatamente invertidos em relação aos rótulos com os quais a sociedade os reconhece e eles mesmos se enxergam, a partir de categorias do século passado. Quem é considerado “progressista” na realidade alça a valor a comida da avó, o saudosismo, exalta a individualidade dos valores antigos do agricultor familiar e de sua resistência à transformação da sociedade, prega a diversidade da iniciativa empreendedora assim como das culturas gastronômicas. Já o “conservador” vira portador da confiança redentora na modernidade, na grande indústria, advoga a prioridade da quantidade sobre a qualidade, prega a homogeneização do gosto a partir da necessidade de universalizar as supostas benesses da grande prateleira do consumo.

Valores tipicamente liberais – desde a livre escolha do consumidor até o direito ao prazer – se tornam bandeira dos que contestam o domínio do mercado. Já os fundamentos do antigo socialismo real passam a perfazer a narrativa da grande empresa, que estigmatiza o comer bem como luxo e privilegia uma espécie de comer medíocre para todos comerem, exalta a primazia da comida barata, aponta a praticidade do ultraprocessado como solução pronta para a classe trabalhadora que não tem tempo para a preocupação burguesa do cozinhar.

A comida como fato político não apenas destruiu as categorias de identificação – e autoidentificação – convencional da sociedade contemporânea, mas chegou a invertê-las, o que explica em parte a perda de referências que gera desnorteamento em muitos grupos sociais, assim como as dificuldades de comunicação e linguagem que caracterizam muito do que se fala, escreve, pensa ou desconfia a respeito do alimento.

Tais paradoxos se revelam de maneira contundente – embora não sempre assumida – nas personagens icônicas dos documentários deste eixo, seja com as nuances de enraizamento cultural próprias da perspectiva europeia (como em Os Libertadores), seja com a abordagem politicamente correta que permeia aquela norte-americana (como em Sustentável). Nesse contexto, aparece com frequência a pergunta preferida do grande agronegócio, das traders que especulam em commodities, dos fornecedores de insumos químicos e mecânicos. Aquele meme com o qual se iniciam as apresentações em Power Point de quaisquer vendedores de soluções padronizadas: “Como vamos alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050?”.

Em Insetos! Uma Aventura Gastronômica a pergunta é, porém, reformulada no âmbito do Nordic Food Lab, um grupo vinculado ao chef René Redzepi, respeitado e reconhecidamente independente: será que os insetos podem fornecer a proteína para alimentar uma humanidade que já tem (muita) comida de sobra? Mas a engraçada dupla viajante formada por um nerd e um cozinheiro logo perde o interesse pela questão e a substitui por uma mistura de curiosidade e fascínio pela diversidade de experiências gastronômicas que os insetos podem proporcionar, e mais ainda pela diversidade das culturas vinculadas à participação dos insetos no cardápio. Uma delícia. E pensar que nem chegaram a conhecer nossos índios.

E se for para falar em índios… aqui a revelação dos mitos que embasam as crenças politicamente corretas do público que dita as tendências da moda – tipicamente urbano e jovem – pode ficar dolorida. Comida de índio já é bom assunto para questionar a percepção que muitos têm dos temas ambientais: aquele público para o qual comer animais de granja em escala de bilhões é fato assumido, mas que não tolera que os que ajudam a preservar enormes espaços naturais utilizem e manejem a fauna selvagem que ali se abriga.

Esse já seria tema incômodo e gerador de contradições gritantes, inclusive no Brasil. Mas no caso do filme Batalha Inuk o dilema vai muito além disso. Não se trata apenas do indígena comer o bicho selvagem, algo que é até aceito em círculos urbanos mais iluminados, mas do fato de que o indígena precisa, por exemplo, também vender a pele do animal para poder comprar o combustível que permite usar o veículo com o qual se desloca no gelo para conseguir sua comida, e assim evitar a dependência de comida enlatada que rapidamente acaba com a saúde de sua comunidade. E aí? Vamos parar aqui pois esse texto não é um spoiler, mas o tema é suficiente para gerar crises de identidade até nos mais resolvidos.

Aliás, a meu ver o ponto alto de todos os filmes é atingido quando uma psicanalista holandesa acompanha sua paciente no embate entre seus desejos carnívoros e a pressão do pacote de informação diária com o qual é bombardeada, e que transforma sua infantil gulosidade em distúrbio. Esse momento retrata idealmente toda a relação atual com o alimento, assim como a culpa que a caracteriza: a paciente daquela cena poderia ser a pessoa obcecada por dietas, a que medicaliza ou funcionaliza a comida a partir de alguma pesquisa no Google, a que atribui propriedades boas ou más ao ingrediente em si, em vez de que à maneira e à quantidade em que ele é utilizado e consumido.

A comida como distúrbio, individual ou social, é talvez o que melhor descreve a conjuntura contemporânea, entre a mal resolvida superação da longa fase de busca de saciedade e uma recente nova fase na qual falta o equilíbrio entre o hedonismo desenfreado e a culpa mística, sem ainda atingir o alvo do equilíbrio necessário para o saudável prazer. Com as devidas diferenças, não é algo muito diferente do que a humanidade passou a respeito do sexo, na transição entre funcionalismo reprodutivo controlado pelo macho e a atual busca de uma dimensão de prazer para todos, e entre todos, o que reflete uma cultura. E como todas as culturas, dinâmica.

Por sinal, há uma cena marcante em que a metáfora sexual entra com ironia alusiva, ainda no filme Desejo de Carne. Ressalva: eu pouco entendo de cinema, e certamente não fui convidado a escrever nesse espaço para falar a esse respeito. Mas enquanto espectador bastante ineducado, tenho a impressão de que a cena tem potencial antológico. É quando as mãos de um jovem chef bonitão, de escola Slow Food e postura reconfortante, se entrelaçam com aquelas da moça em busca de poder comer seu bife em paz, numa peculiar experiência sensorial: a de palpar um boi buscando entender, a partir de sua gordura subcutânea, se está ou não pronto para o abate. Não será o carrinho de bebê na escadaria do Encouraçado Potemkin, mas vale seus 20 segundos de cinemateca.

Talvez a única limitação do conjunto de obras apresentadas é a de refletirem, todas, uma visão oriunda do mundo desenvolvido. Embora não faltem filmagens e testemunhas do Sul econômico, notadamente em Insetos! Uma Aventura Gastronômica e Os Libertadores, a perspectiva que as introduz é sempre a do Norte. O que não é uma limitação dos filmes em si, mas sugere talvez a oportunidade de dar seguimento a essa experiência apontando visões desse hemisfério, inclusive para checar até que ponto podem resultar sendo rigorosamente as mesmas do outro. Ou não.

ROBERTO SMERALDI é jornalista, ambientalista e cozinheiro. Colunista do caderno Paladar do jornal Estado de S. Paulo (coluna Prato Cabeça), é fundador e vice-presidente do Instituto Atá. Está atualmente engajado na criação de um centro de gastronomia e biodiversidade na Amazônia.

* Texto produzido orginalmente para o catálogo da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada de 1º a 14 de junho de 2017, em 30 salas de exibição em São Paulo. Acesse www.ecofalante.org.br/mostra

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