Milagres e miragens

OTÍLIA ARANTES

Nos primeiros planos dos cinco filmes agrupados nesta sequência temática predominam as imagens e os sons característicos da assim chamada máquina urbana de crescimento econômico funcionando a todo vapor. Ao lado dos skylines estilizados de sempre, quando se trata de promover a imagem das cidades à venda no mercado da liquidez global, alinham-se os cenários de demolição-construção atravessados por uma profusão de gruas, elevados, vias expressas, subterrâneos, torres em cidades ora reluzentes ora fantasmagóricas, conjuntos habitacionais de viabilidade duvidosa, presença avassaladora das infraestruturas de toda sorte, do transporte às centrais de geração e transmissão de energia, etc.

Numa palavra, a imagem mesma da colossal aceleração do processo urbanizante que tomou conta do planeta nas últimas décadas. A ONU projeta um acréscimo de 2,5 bilhões de pessoas à população urbana até 2050. Para variar, podemos presumir que só as cidades chinesas comportarão bem mais de 1 bilhão de pessoas. Não surpreende assim que, dos cinco filmes escolhidos, três se passem na China.

Todavia, os filmes que veremos no eixo Cidades documentam essa ruptura assustadora na história conhecida dos assentamentos humanos pelo filtro da experiência pessoal da vida na metrópole nessas condições globais inéditas. Obviamente, estamos bem longe da intensidade carregada de promessas dos primeiros tempos da invenção urbana da modernidade. Mesmo no estranhamente apaziguador e meditativo curta-metragem Champ des Possibles – por assim dizer, uma vinheta dessa série –, a voz masculina, que se identifica como um presidiário recém-saído da prisão, declara que seu sentimento de liberdade não durou uma hora, e isso na próspera Montreal, enquanto seu contraponto feminino, bem na sua pele, seja em casa com o filho pequeno, seja na rua a caminho do trabalho, reflete consigo mesma se toda aquela harmonia entre interior e exterior não estaria desfeita nos anos seguintes.

 

Abrindo a “trilogia” chinesa, como um romance de formação clássico, o filme de David Borenstein, Império da Fantasia aborda a grande narrativa do Sonho Chinês, oficialmente entronizada no discurso inaugural do presidente Xi-Jinping, no final de 2012, pelo prisma de um desengano pessoal. Que será apenas, como lembrado acima, uma frustração a mais num mar de capitulações, no qual, faz tempo, a soma das desilusões não retempera mais a alma posta à prova pela força das coisas. O filme acompanha a breve carreira de uma jovem e ambiciosa provinciana (Yana), recém-chegada à descomunal Chongqing, disposta a batalhar pela sua fatia do tal sonho nacional, lançando-se com simpática energia empreendedora num curioso ramo subsidiário dos grandes negócios imobiliários locais. Associando-se a Jimmy – este, natural da terra e dispondo de algo de seu –, Yana abre uma agência especializada num produto verdadeiramente surreal: alimentar a frenética e onívora estratégia de vendas dos incorporadores com “manequins ocidentais” ou, como os agenciadores preferem dizer, referindo-se aos bárbaros de ultramar, “macacos brancos”, sem excluir os africanos, pelo seu exotismo suplementar, desde que apresentados como pop-star franceses, por exemplo. Com eles, um gênero não menos inconcebível de espetáculo é montado, uma mescla inacreditável de show mambembe e farsa teatral, a que o narrador americano se refere, um tanto encabulado, como os nossos gigs. É que, na possível ficção da obra, seu narrador (o diretor do filme) meio que perambula pela nova China, cujo renascimento a realização do Sonho Chinês deve resgatar para o mundo, um pouco sem eira nem beira depois de esgotada uma inespecífica bolsa de estudos urbanos, quando é recrutado por Yana justamente por sua “cara branca”, à qual se soma uma certa habilidade escolar com o clarinete, formando com alguns europeus desgarrados pela cidade uma inesperada banda brancaleone, como se fosse um artigo de primeira recém-desembarcado no país. Os “macacos brancos” também cantam, dançam, desfilam em pseudo passarelas fashion, e quando as coisas começam a apertar, as vendas nacionais de moradia despencando, em 2014, são convocados para um último lance teatral: passam a representar diversos personagens em documentários fake, “atuando”, ora como engenheiros ultra especializados nos canteiros de obras, ora como executivos internacionais deliberando em gabinetes luxuosos, e até como residentes em hospitais sequer inaugurados. Toda essa parafernália acontece sobretudo nos dias especiais de visitas de investidores e líderes políticos e, é claro, nos eventos de “house opening”  para a massa embasbacada de possíveis compradores, aos quais se vende antes de tudo uma “experiência” ainda por vir: a de morar num ambiente internacional de primeira classe. Como constata Jimmy, o Made in China vende mal entre os chineses, de sorte que uma “first-class-international-city” para ser passada adiante precisa apresentar-se como um simulacro londrino, por exemplo  – ou um parque temático qualquer, com posto de estereótipos estrangeiros. Uma trapaça sem dúvida engenhosa, mas que não sobreviveria se não contasse com o envoltório kitsch de todo esse desesperado arrivismo de massa, alçado pelo discurso oficial à condição de mola do take off chinês. Quando finalmente o engodo vem à tona, a multiplicação de condomínios fantasmas no meio de lugar nenhum, a quilômetros da Chongqing saturada (quase 40 milhões de habitantes), pequenas multidões de compradores indignados e enfurecidos passam a tumultuar aqueles programas de auditório. A consciência de Yana, que sabia das coisas só pela metade, começa a pesar e fraquejar, agravando ainda mais o desalento com que ela assistia sua própria débâcle financeira, até encerrar sua, até então animada, sociedade com Jimmy, aos olhos do qual – se dá conta – era apenas uma garota ingênua e deslumbrada com as luzes da cidade e, por isso mesmo, finalmente abatida pelo estouro da primeira bolha imobiliária de sua carreira. É nesse horizonte raso que transcorre a educação sentimental da pequena Yana.

 

Na Mongólia interior, então uma das regiões mais pobres da China, apesar de rica em carvão, foi dado início, em 2001, a um dos projetos urbanos mais ambiciosos da Era das Reformas, a cidade de Ordos, na língua local, “a terra de muitos palácios” – que nos remetem aos tempos gloriosos de Gengis Khan, mas também, involuntariamente, ao urbanismo de fachada da Nova China – projetada com o propósito de se tornar um cluster de excelência ou uma Dubai chinesa. Por enquanto, no entanto, não mais do que outra cidade Potemkin, conhecida no mundo todo como a maior “cidade fantasma” da China. Não exatamente por um colapso econômico, mas porque o governo não conseguiu ainda “convencer” inteiramente as pessoas, especialmente aquelas ligadas à exploração de carvão ou os pequenos agricultores à volta – aos quais afinal ela acabou sendo destinada, após o fracasso do projeto original –, a se mudarem para lá, e seriam necessários no mínimo 1,5 milhão para dar um ar de cidade às torres e equipamentos de última geração e seu imponente centro urbano. Para desespero dos especuladores que compraram na planta tudo o que podiam, para não falar nos investidores de olho na industrialização da agricultura que se seguiria, uma vez completada a operação. Intrigados com o fenômeno, dois estudantes de Stanford, hoje professores em Pequim, a chinesa Song Ting e o inglês Adam Smith (sic) fizeram uma primeira visita à cidade em 2011, retornando dois anos mais tarde para a filmagem do documentário Terra de Muitos Palácios. Guiados pela jovem funcionária da municipalidade, Yuan Xiaomei, por sua vez supervisionada por seus líderes (nada sem autorização e prestação de contas), os dois cineastas farão então sua “experiência” particular do terremoto social programado para deslocar nos próximos 20 anos mais 250 milhões de habitantes do campo para as novas zonas urbanas, transposição jamais vista nesta escala e velocidade.

Respira-se no filme uma inesperada atmosfera de melancolia e civilidade. Não por acaso a primeira imagem mostra longos trapos pretos esvoaçando sobre um campo de neve encardida. Embora “autorizado”, o que se segue não será nem um pouco euforizante, malgrado a voz acolhedora de Xiaomei abrindo o dia em algum programa radiofônico, saudando a “brisa da nova cidade”, sobre cujo vazio a perder de vista a câmara passeia. Logo veremos Xiaomei em pessoa ensinando a um casal de camponeses o manuseio básico de um apartamento moderno, a começar pelos desvios de função do vaso sanitário – a serem evitados! O tom será esse. Com uma cartilha na mão, Xiaomei e um colega dão aula de boas maneiras urbanas, embora tenham dúvidas quanto à melhor definição de cidade civilizada, nada encontrando a respeito no manual. Noutra palestra motivacional, um dos líderes de Xiaomei encarrega-se da explicação, recorrendo ao “grande conceito de Sonho Chinês, recentemente proposto pelo presidente Xi-Jiping”, rapidamente traduzido nos termos de uma urbanização incontornável e patriótica. Mudando-se para uma cidade “limpa” – há uma espécie de varrição constante pontuando o filme – as ideias também mudarão. Tudo somado, uma paródia involuntária e nada isenta da definição freudiana de civilização: ordem, limpeza e beleza. Multiplicam-se tours pela cidade, visitas a centros de acolhimento (palestras sobre saúde e finanças, seguida de venda de apólices de seguro). Os camponeses relutam, embora no fundo saibam que cedo ou tarde a terra lhes será tomada a baixo preço. A economia do dinheiro lhes parece um contrassenso, pois viviam largos períodos sem ele e não precisavam de supermercados para sobreviver. Tampouco é fácil encontrar trabalho, salvo na redundante construção civil. E, no entanto, o clima de paciente convencimento não se altera e, o mais curioso, nos termos do filme, nem mesmo nas cenas oficiais de espetáculos públicos. Talvez contribuam para essa sensação de baixa coerção o rosto impassível e indecifrável dos camponeses passeando, ouvindo arengas, e sobretudo assistindo estáticos os canais de TV a cabo em apartamentos decorados por burocratas. Ao final do filme vemos pelo menos um deles voltando para sua terra, nada convencido com a parte que lhe fora atribuída no Sonho Chinês. A resistência, na acepção mais branda da palavra, possivelmente se explique em alguma medida também pelo fato de Ordos ser mais uma cidade “genérica”, na terminologia do arquiteto Rem Koolhaas: suas “marcas” podem mudar, mas não a sensação do déjà vu, quem viu uma viu todas, não há como incutir em seus habitantes, apesar das muitas esculturas de Gengis Khan e de cavalos mongóis espalhadas pela cidade, algo como o “espírito do lugar” ou o “patriotismo de cidade” demandado pelos fabricantes de cidades competitivas na arena global.

No último filme desta trilogia chinesa, Minha Terra, despertamos do sonho para a violência que impulsiona a expansão dessas formas urbanas extremas, por sua vez a casa de máquinas nada oculta do milagre chinês. O ponto de vista adotado pelo diretor (Fan Jian) é o de um morador do campo, Chen Jun, cuja trajetória acompanha por três anos (de 2011 a 2014). Chen resolve deixar sua terra e ir para a cidade (Pequim) ainda muito jovem, em 2004, mas, não conseguindo trabalho, acaba tendo que se fixar na região de Hebei – ao sul de Pequim –, numa área semi-rural, onde associa-se a outros migrantes que também se dedicam ao cultivo da terra. Mas, após anos ali estabelecidos (alguns há mais de dez anos), acabam sendo expulsos pelas autoridades, sem aviso prévio e sem nenhuma indenização (eram considerados ilegais), retirados à força de suas casas destruídas pelos bulldozers do incorporador, com a sanção da administração local, para dar lugar à expansão imobiliária da cidade vizinha ao assentamento. O filme é a história, a partir de 2011, da resistência deste personagem, com sua esposa e filha, que, com tudo demolido à volta, a água e a luz cortadas, tentam sobreviver, refazer a horta, criar galinhas, etc., enfim sobreviver com um mínimo de dignidade. No entanto, após o segundo filho, quando já não era mais pressionado –  o crescimento acelerado da cidade próxima cedia o passo, deixando apenas escombros sem futuro –, se vê obrigado a partir para assegurar o futuro dos filhos, inclusive o direito à escola, indo buscar um trabalho na cidade e fazer jus ao título de cidadania. O roteiro é conhecido…. mas a novidade e a força do filme estão em documentar a espantosa resistência de uma família que cultiva obstinadamente sua terra na contramão do pesadelo chinês. Várias imagens do filme sugerem que sua inacreditável energia talvez emane do simples fato de ainda sonharem, mas com a terra.

 

Frágil Equilíbrio também envolve sonho e o correspondente despertar para um pesadelo. Desta vez, o sonho por excelência do curto século XX: produção de massa, consumo de massa, democracia de massa. O colapso conjugado do fordismo ocidental e do sistema soviético, acrescido da assustadora mutação chinesa e a pressão de todos esses desastres na aceleração da crise civilizatória que está arrastando consigo a vida no planeta. O sinal de alarme é acionado ao longo da extensa entrevista do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, cujo estilo de vida refratário é todo um argumento, que por seu turno as imagens do filme ilustram, por vezes literalmente. Todavia, como em todo bom filme, o encadeamento delas tem um rumo próprio. O mesmo drama da vida por um fio assombra três situações de crise em três continentes: um campo de migrantes africanos no Marrocos, onde toda noite enfrentam a morte para entrar na Espanha pela fronteira do enclave de Melilla; do outro lado, no entanto, cidadãos espanhóis são brutalmente despejados pela ruína do castelo de cartas imobiliário que se sabe; enquanto isso em Tóquio, dois salarymen extenuados conversam sobre suas vidas literalmente consumidas por uma gigantesca máquina produtivista tão sem sentido que até o suicídio parece uma saída. A redenção dos desesperados que fogem de um continente saqueado consiste em saltar para um barco que está fazendo água. Muitas sequências do filme concentram-se nos mínimos vitais representados por funções elementares: comer, morar ou simplesmente conviver. Dorme-se por toda parte na afluente capital japonesa: nos metrôs, nos bancos públicos, em qualquer canto, em qualquer posição, até no próprio trabalho, como quem diz: mesmo dormindo, estou presente, estou trabalhando, a rigor não durmo mais. Deambulando pela noite de Tóquio, o salaryman insone compra um tênis sem saber porquê, possivelmente o mesmo tênis que do outro lado da cerca africana o refugiado manuseia como o passaporte para tentar escalar mais uma vez o muro da desgraça, o qual, já percebeu, aliás, não ser uma simples cerca mas uma fonte de negócios para espanhóis e marroquinos financiados pela União Europeia. Meses a fio, não desistem, como o ferroviário madrilenho despejado e morando na rua. Mais uma vez, de onde viria essa energia paradoxal? Não de uma “sociedade do cansaço”, como a japonesa. A ironia da situação é que o filme nos apresenta a imagem de uma predação sem fim de recursos finitos, a começar pelo próprio tempo de vida das pessoas. Como ao fim e ao cabo saiu em busca de um “equilíbrio”, seu fecho não é propriamente distópico. Como nosso guia nessa viagem pelas ruínas do capitalismo, o ex-tupamaro Mujica acredita em milagres, a começar pelo milagre da vida – por que não? Milagres acontecem, ainda mais num tempo de catástrofes, em que o impossível é uma certeza, como disse um filósofo otimista.

 

OTÍLIA ARANTES é professora aposentada da USP, onde lecionou no Departamento de Filosofia e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. É autora de CHAI-NA, livro sobre o processo de urbanização da China, entre outras publicações nas áreas de estética e crítica da arte.

 

* Texto produzido orginalmente para o catálogo da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada de 1º a 14 de junho de 2017, em 30 salas de exibição em São Paulo. Acesse www.ecofalante.org.br/mostra

 

 

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