As Chagas Abertas da Amazônia

JOSÉ GERALDO COUTO

Não é de hoje que o cinema brasileiro volta suas câmeras para a Amazônia. Sem contar os registros documentais, que remontam à época do filme mudo e às expedições desbravadoras da primeira metade do século XX, as dramáticas questões ambientais e humanas da região alimentaram as inquietações e a imaginação de inúmeros cineastas de diferentes gêneros, estilos e pontos de vista.

As décadas de 1970 e 80 foram um período particularmente fértil em incursões ficcionais naquele território. E o Panorama Histórico apresentado pela 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental oferece um painel vívido e multifacetado dessa rica produção. São seis longas-metragens realizados entre 1973 e 1991.

Muito antes de expressões como “agronegócio” e “bancada ruralista” tornarem-se de uso corrente, temas como o desmatamento e o extermínio ou a aculturação indígena já inquietavam os realizadores de filmes como Uirá, um Índio em Busca de Deus (Gustavo Dahl, 1973), Bye Bye Brasil (Cacá Diegues, 1980), Avaeté – Semente da Vingança (Zelito Viana, 1985) e Fronteira das Almas (Hermano Penna, 1987).

 

ABORDAGENS VARIADAS

 

Embora as abordagens estéticas e os enfoques políticos sejam os mais variados possíveis, saltam aos olhos nessa cinematografia alguns temas recorrentes: a ação predatória de madeireiros e mineradores, os conflitos de terra, o confronto desigual entre brancos e índios, as rápidas transformações da paisagem física e humana da região.

Alguns filmes, como Avaeté e Fronteira das Almas, têm uma pegada mais urgente, quase documental, de denúncia de um sistema de poderes e interesses que ameaça a integridade dos povos da região e seus meios de subsistência. A força da grana, que nesse canto do mundo mais destrói do que ergue coisas belas, eclode com toda a brutalidade nesses dramas em que as vítimas são sempre os seres mais vulneráveis – os índios, os caboclos ribeirinhos, os trabalhadores de frentes de desbravamento, os religiosos humanitários, os militantes de ONGs preservacionistas. Articulado ao interesse econômico, e no mais das vezes servindo a ele, o poder político e policial (quando não militar) deixa pouco espaço para a resistência. Nessa vasta parte do planeta impera a lei do mais forte.

O foco, em Fronteira das Almas, é o drama social de desbravadores de Rondônia, iludidos com a possibilidade de começar uma vida nova numa terra virgem, e de posseiros do Pará, expulsos à bala de suas terras por grandes proprietários. Poderia ter sido filmado hoje, pois os problemas que aborda persistem, ainda mais agudos.

A fronteira entre ficção e documentário se dilui especialmente em Iracema, uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1976) – filme exibido na 1ª e 4ª edição da Mostra Ecofalante, e que compõe esse quadro em que se cruzam a trajetória de um branco, motorista de caminhão, e uma índia – a Iracema do título, que se prostitui na periferia de Belém. Nesse marco incontornável do cinema brasileiro, os mitos de “Brasil grande” e “país do futuro” têm como contraponto a destruição ambiental e a degradação humana dos habitantes da região. O nome da protagonista, além de ser um conhecido anagrama de América, sugere uma referência irônica ao romance oitocentista de José de Alencar, em que a visão do encontro entre um colonizador e uma nativa era bem mais romântica.

Em outros títulos da seleção a ênfase está no choque cultural, no embate entre concepções de mundo e de civilização, do qual os povos indígenas têm saído sistematicamente derrotados. É o caso, por exemplo, de Uirá, de Brincando nos Campos do Senhor (Hector Babenco, 1991) e de Bye Bye Brasil.

Vista em conjunto, portanto, essa produção cinematográfica é a história de uma derrota, de um massacre, de um extermínio físico e cultural. Mas as muitas vozes que a contam permitem entrever matizes, linhas de fuga, frestas de esperança.

 

PERSPECTIVA DO ÍNDIO

 

Algumas das narrativas são construídas do ponto de vista dos índios, isto é, de personagens indígenas que a certa altura se veem às voltas com o complicado e hostil mundo dos brancos. Em Avaeté, o único sobrevivente do massacre de uma aldeia cresce no meio dos brancos, adotado por um cozinheiro alcoólatra, e busca vingança dos matadores de sua tribo. Para isso, vê-se envolvido numa trama cada vez mais complexa que inclui empresários, políticos, policiais e mídia. A trajetória do protagonista é uma jornada de esclarecimento, rumo à ação política. Descontadas algumas diferenças, sobretudo de escala, é de uma atualidade pungente.

Em Uirá, por sua vez, o personagem-título, depois da morte de seu filho favorito, decide por conta própria abandonar sua aldeia e sair em busca de Maíra, uma divindade com a qual só os mortos costumam ter contato. Nessa peregrinação sem destino ele acaba entrando inadvertidamente no mundo “civilizado”, que o trata alternadamente como selvagem perigoso, marginal, curiosidade folclórica e joguete de políticos demagogos. Realizado a partir de estudo de Darcy Ribeiro e ambientado na época do Estado Novo, o filme tem um tom de lenda trágica.

Ainda no grupo de obras protagonizadas por índios, A Lenda de Ubirajara (André Luiz Oliveira, 1975) é um caso à parte. Adaptação livre do romance homônimo de José de Alencar, o filme só tem personagens indígenas (os principais deles interpretados por atores brancos) e é todo falado em língua carajá, do tronco linguístico macro-jê. Trata-se de entrechoque bélico e amoroso entre Araguaias e Tocantins. Sua ambientação é atemporal, mas uma coda ou epílogo situa um índio diante da praça dos Três Poderes, em Brasília, mais como dispositivo alegórico do que propriamente narrativo. De todos os filmes da retrospectiva histórica é talvez o mais livre e “autoral” em termos de linguagem cinematográfica, com sua câmera na mão, seu andamento musical, seus longos planos abertos, sua luz frequentemente “estourada”.

 

DO CIRCO À TRAGÉDIA

 

Em contraste com o baixo orçamento e os recursos modestos de Ubirajara e Fronteira das Almas, temos a grande produção internacional Brincando nos Campos do Senhor e, num patamar intermediário, Bye Bye Brasil. Este último, certamente um dos melhores trabalhos de Cacá Diegues, narra a odisseia de um pequeno circo itinerante, a “Caravana Rolidei”, pelo Norte e Nordeste do Brasil. O que se descortina, para os artistas da trupe (mágico, bailarina, sanfoneiro, homem-de-aço) e para o espectador, é um país em vertiginosa transformação, movida pela voracidade do capital e pela avassaladora homogeneização cultural promovida pela televisão. O tom é de comédia picaresca tingida com a tinta da melancolia. A Amazônia retratada ali é uma espécie de faroeste de homens embrutecidos pela ganância e mulheres prostituídas pela necessidade.

Um tanto mais nuançado é o painel pintado por Babenco em Brincando nos Campos do Senhor. Baseado no romance homônimo do norte-americano Peter Matthiessen, com elenco estelar internacional, o filme narra uma situação intrincada que envolve uma aldeia de índios isolados, uma missão protestante americana, mineradores, policiais corruptos e aventureiros de toda espécie. Vários planos de conflitos se instauram, alguns deles materiais, outros culturais, outros ainda espirituais. A articulação entre os vários planos – político, antropológico, filosófico-religioso – se dá por meio de um personagem singular, um cheyenne aculturado que tem a missão de bombardear com um monomotor uma aldeia indígena amazônica, mas que na hora H resolve mudar de lado.

Nesse filme-síntese grandioso, subvalorizado em sua época, os dramas éticos de vários personagens – brancos e índios – confluem para uma questão central que, de certo modo, está subjacente a toda essa rica e variada produção cinematográfica: como se relacionar com o outro (o outro povo, a outra etnia, a outra cultura, a outra classe social, o outro gênero, o outro país) sem oprimi-lo, desvirtuá-lo ou destruí-lo?

O mais interessante – e inquietante – nesse conjunto de obras é que elas, apesar de produzidas num contexto histórico específico (ocaso da ditadura militar, início da redemocratização), não são nem um pouco datadas, não são de modo algum peças de museu. Estão vivas, tocam em chagas abertas e, eventualmente, reverberam em outros filmes, de tempos mais recentes, como o épico Xingu (2011), de Cao Hamburger, e os documentários Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, e Martírio (2016), de Vincent Carelli – homenageado da mostra deste ano.

Sem os trabalhos destemidos e desbravadores desse Panorama Histórico, nosso conhecimento e nossa sensibilidade em relação ao mundo amazônico seriam bem mais pobres. A oportunidade de vê-los lado a lado, permitindo que iluminem uns aos outros, é um feliz acontecimento.

 

JOSÉ GERALDO COUTO é jornalista, crítico de cinema e tradutor literário. Trabalhou para o jornal a Folha de S.Paulo e para a revista Set, atualmente mantém uma coluna de cinema no blog do Instituto Moreira Salles.


 

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