Um mosaico de mundos contemporâneos

ADRIANA RAMOS

E se, diante de tantas crises, nossa sociedade se voltasse aos povos indígenas e às comunidades tradicionais para reconhecer neles novas formas de viver, de se relacionar com o planeta e entre si? E se nos déssemos conta de que nesses diferentes modos de vida se encontra o mais vasto repertório de soluções e caminhos para tantos dilemas da atualidade? E se, por um instante, a população urbana ocidental deixasse a arrogância de lado e buscasse um exercício de empatia com a diversidade de povos com quem dividimos o mundo?

Se nós os assumíssemos como parte do nosso presente e futuro, e não como representações de um passado que insiste em romper a barreira do tempo, talvez pudéssemos aprender um pouco.

Se, além disso, fizéssemos uma reflexão crítica sobre como o nosso modo de vida impacta o meio ambiente e desagrega as comunidades, aí então, quem sabe, teríamos uma oportunidade de construir uma visão de futuro diferente para nós e com eles. Uma visão que rompa com o ciclo destrutivo que a hegemonia capitalista construiu, em nome do que se convencionou chamar “progresso”,  no qual destruímos os recursos de que dependemos para viver.

Nessa dinâmica, a vida de outros seres humanos é, muitas vezes, desconsiderada. Em nome do progresso, promovemos o desrespeito e a violência, que contrastam com a modernidade que supomos representar. Em nome do progresso permitimos a barbárie, embora para nós esta seja uma característica de incivilidade e selvageria, também não condizente com o que imaginamos ser.

A temática Povos & Lugares da 6ª Mostra Ecofalante é um convite à empatia e à reflexão sobre o encontro de tantos mundos e os conflitos – ou a colisão – entre eles. Empatia com a luta dos povos que veem seus lugares ameaçados por interesses econômicos que dominam os estados nacionais, empatia com aqueles que morrem na linha de frente de tais conflitos. Sem desconsiderar que, muitas vezes, dentre estes, há pessoas que por dever de ofício acabam defendendo com suas vidas governos intransigentes e pouco democráticos, que se colocam a serviço de interesses privados, em detrimento de seus deveres com o interesse público.

Os filmes estimulam uma reflexão sobre o mundo que somos e o que queremos ser no futuro. Nessa parte da mostra não há filmes brasileiros, mas todos são exemplos que nos ajudam a pensar o Brasil, a começar pelos graves conflitos envolvendo interesses privados sobre territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais, como no filme Quando Dois Mundos Colidem ou em A Resistência. Conflitos que se reproduzem a cada novo empreendimento em regiões como a Amazônia.

Quando Dois Mundos Colidem acompanha o confl ito de Bagua em tempo real, relatando a iniciativa do governo peruano de editar leis para viabilizar a exploração de petróleo e gás em territórios da Amazônia, como parte do acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Indígenas da região, sob a liderança da Asociación Interetnica de Desarrollo de la Selva Peruana (AIDESEP) e seu então presidente, Alberto Pizango, organizam uma manifestação e fecham estradas da região durante mais de um mês, sem que o governo volte atrás em suas decisões. Os confl itos que surgem após a intervenção da polícia, deixando centenas de feridos e mais de 20 mortos entre indígenas e policiais, demonstram que não há solução pacífi ca possível quando governos abrem mão  do diálogo e optam pelo uso da força policial.

Em A Resistência, uma comunidade que vive próxima à praia vê seu território em risco quando um grande projeto imobiliário ameaça se instalar na área. A comunidade busca os meios legais para se contrapor ao projeto, mas o final inesperado do filme demonstra o quão distante da justiça a realidade pode ir.

Quando Dois Mundos Colidem, junto com outro dos filmes, Salero, revelam as expectativas de dois governos latino-americanos em alcançar o esperado desenvolvimento por meio de projetos de interesse internacional que não coincidem com as expectativas das comunidades locais. Alan Garcia por um lado e Evo Morales por outro, mesmo face às grandes diferenças que os separam, alimentam a mesma utopia de um progresso que chegará como um benefício a todos, em troca dos recursos naturais de seus territórios, sem considerar os impactos socioambientais, que sequer são devidamente contabilizados.

A perspectiva do progresso como modernidade em contraposição às tradições, tratadas como resquícios do passado, está presente em todos os filmes dessa categoria.

Em Salero, a descoberta de uma jazida de lítio no Salar de Uyuni coloca em xeque os sonhos dos filhos do saleiro Moises de seguirem a trajetória do pai. Anuktatop: A Metamorfose e A Terra dos Fantasmas Vista pelos Bushmen expõem esse dilema muito atual dos povos indígenas, em especial da juventude, vivendo entre dois mundos, buscando, cada um à sua maneira, encontrar meios de compatibilizá-los, sob questionamentos frequentes, de ambos os mundos, sobre sua identidade.

A metamorfose do povo Wayana, da Guiana Francesa, apresentada numa narrativa mista de ficção com documentário, mostra os contrastes na vida de um dos mais de 40 povos que vivem em regiões de fronteira com o Brasil. A pergunta que eles se fazem: “O que faz de você um verdadeiro Wayana?” também é repetida por não índios em todos os lugares. Mas se a resposta para os Wayana ou para os Ju/’Hoansi é um exercício de autoafirmação de identidade, ao ser proferida pelos não indígenas ela toma a forma de questionamento a seus direitos.

Não à toa, foi criada a hashtag #MenosPreconceitoMaisIndio para acompanhar o vídeo do Instituto Socioambiental que mostra como vive o povo indígena Baniwa nos dias de hoje, reafirmando que o uso de artefatos, tecnologia e práticas do mundo dos brancos não os torna menos índios.

A Terra dos Fantasmas Vista pelos Bushmen explora a visão dos Ju/’Hoansi sobre o mundo moderno ocidental. Em uma viagem à Europa, o estranhamento deles põe luz sobre questões que falam muito sobre nossa sociedade e as crises que vivemos. “Eles não se conhecem” dizem eles diante de pessoas passando umas pelas outras sem se cumprimentar em um shopping.  “Muito barulho, sempre”; “eles querem muito, trabalham muito, e parece que nunca dormem”; e “quando chegam em casa estão muito cansados, mas não param para descansar”. Assim como os Ju/’Hoansi, Moises não se interessa pela vida da cidade. Ambos se impressionam diante do fato de que ali nada acontece se não houver dinheiro, e as pessoas sempre querem algo mais do que o que já têm.

É provavelmente “algo mais” o que procuram os montanhistas que almejam alcançar o Everest, como mostra Sherpa  – Tragédia no Everest. Acompanhando a tragédia de 2014, em que 16 Sherpas são mortos por uma avalanche, o filme mostra os meandros do turismo no Everest, na visão da população que vive na base do monte e cujo trabalho é conduzir os visitantes na subida da montanha. O filme ex põe as percepções dessas pessoas que têm a montanha como seu território, frente às ambições e expectativas dos montanhistas que pagam mais de US$ 70 mil pelo objetivo de alcançar o ponto mais alto do mundo. E, diante da tragédia, a pressão do dinheiro deixa suas marcas.

Quase todos os filmes da temática Povos & Lugares nos colocam diante desses dilemas do velho e do novo, do tradicional e do moderno, da relação entre as culturas tradicionais e a nossa sociedade. Mas em Uma Caçadora e sua Águia, é a inovação e o rompimento de barreiras dentro de uma mesma cultura que nos dá a sensação de renovação e esperança. A história da menina que luta para ser reconhecida em uma atividade tipicamente masculina, como a caça com a águia, é uma demonstração de que as dinâmicas culturais podem ser atualizadas sem perder sua essência.

É nessa perspectiva que essas histórias se entrelaçam, na esperança que é inerente a todas as lutas, e na força desses povos, que recusam o lugar no passado que a eles queremos atribuir para assumir sua presença aqui e agora. Porque somos contemporâneos nesse mundo em crise, e é reconhecendo nossas diferenças com respeito que teremos alguma chance de superá-la.

 

ADRIANA RAMOS é coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental – ISA e membro da diretoria executiva da Associação Brasileira de ONGs (ABONG). Estudou Comunicação Social e atua no campo das políticas socioambientais.

 

 

* Texto produzido orginalmente para o catálogo da 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada de 1º a 14 de junho de 2017, em 30 salas de exibição em São Paulo. Acesse www.ecofalante.org.br/mostra

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