Mostra Ecofalante faz a maior edição de sua história

6ª edição do festival de cinema ambiental atingiu 26.600 pessoas em 50 espaços de São Paulo

texto: Marina Vieira
fotos: Marcos Finotti

Inserida no contexto de retrocessos na legislação socioambiental, crise econômica e política no país, a 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental pareceu oferecer respiro às 26.600 pessoas que participaram de sua realização, de 1º a 14 de junho de 2017, em São Paulo. Uma pausa para assistir a obras provocadoras, discuti-las e repensar o mundo.

A centena de filmes de diversos países reunidos pela curadoria ocupou 30 salas da capital, escolas e universidades. Novos locais de exibição, como as salas da Spcine no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes, Biblioteca Roberto Santos e em diversos Centro Educacionais Integrados (CEUs), ajudaram a levar a programação à praticamente todos os cantos da cidade.

O empenho em expandir o circuito é fruto de um de seus objetivos fundamentais: democratizar o acesso ao debate socioambiental. “O grande desafio é esse, levar esses conteúdos para o maior número de pessoas, principalmente nos espaços de formação. Esse ano ampliamos os locais de exibição de 11 para 30, com predomínio para a periferia, e 20 instituições de ensino, públicas e privadas”, explica Chico Guariba, diretor da Ecofalante.

Para isso, foram feitas mais de 430 sessões gratuitas de filmes e 77 debates ou bate-papos com diretores, cientistas, professores, ativistas, jornalistas e outros especialistas nos temas propostos. As discussões começaram com o encontro histórico dos cineastas do panorama “A Amazônia no Imaginário Cinematográfico Brasileiro”. André Luiz Oliveira, Hermano Penna, Jorge Bodanzky, Lauro Escorel e Zelito Viana contaram como foi filmar na Amazônia durante o regime militar e o período de redemocratização, e refletiram sobre o que mudou para a região desde então.

Bodazky, Oliveira, o curador Francisco Filho, Viana, Penna e Escorel

Jorge Bodanzky, que filma na Amazônia há 50 anos, conta que a mudança está na organização da sociedade civil, segundo ele praticamente impossível nos anos 60 e 70 por causa da ditadura. “Apenas a igreja conseguia chegar nas regiões mais afastadas. Hoje as comunidades estão muito bem organizadas, tanto as ribeirinhas, quilombolas, indígenas, quanto de caboclos”, disse o diretor.

Foi consenso entre os realizadores, porém, que os filmes do panorama histórico permanecem atuais. Os problemas e tensões que eles abordam, de ocupação e exploração da Amazônia, relações dos povos indígenas com a igreja, fazendeiros e com suas próprias identidades, continuam existindo; em alguns casos, se agravaram. Por isso, por novos públicos poderem conhecer e refletir sobre essas realidades, que Hermano Penna disse ter sido uma grata surpresa o convite para exibição de seu filme “Fronteira das Almas”, especialmente dentro do contexto de outros filmes da Mostra.

“A Mostra é uma oportunidade que a Ecofalante dá à cidade de São Paulo de ver o que o cinema mundial pensa sobre a questão da ecologia, da voracidade desse capitalismo internacional sobre os recursos naturais, sobre a vida das pessoas, e ver como as pessoas estão reagindo a isso”, afirmou Hermano. “Isso é de fundamental importância porque hoje não se pode pensar o mundo sem pensar o problema ecológico. É a própria vida humana que está sendo colocada em risco”, completou.

Cinema e resistência

Um filme que retrata com maestria a extensão histórica dos problemas socioambientais de hoje em dia é o premiado “Martírio”. Vincent Carelli, diretor, foi o grande homenageado da 6ª Mostra Ecofalante, que exibiu ainda “Corumbiara” e curtas do projeto Vídeo nas Aldeias. Na roda de conversa para a homenagem estiveram presentes Carelli, Tonico Benites, liderança indígena Guarani Kaiowá, e os colaboradores do Vídeo nas Aldeias, Leandro Saraiva e Fábio Costa Menezes.

Carelli contou estar feliz com a homenagem pela importância dos temas em debate na Mostra Ecofalante. “Há um trabalho de curadoria, de ir garimpar esses temas pelo mundo afora, que faz com que esse festival tenha uma personalidade e uma missão muito especiais”, disse o diretor.

Retratos do mundo contemporâneo

A Mostra Contemporânea Internacional trouxe 39 filmes, dos quais 34 eram inéditos no Brasil. Dois eixos temáticos foram novidade – alimentação & gastronomia e trabalho – e, junto com os outros já conhecidos da Mostra, de cidades, economia, mudanças climáticas, contaminação e povos & lugares, formaram um “mosaico em escala global” – nas palavras de Ricardo Antunes, para o catálogo – do mundo atual.

Para cada eixo temático foi realizado um debate com especialistas nas áreas. A média foi de 112 pessoas em cada debate, reflexo do interesse público em conversar sobre os assuntos trazidos pelos filmes. Segundo Ricardo Abramovay, professor titular da FEA-USP que participou da mesa Economia: Soluções para o Amanhã, um dos maiores desafios que temos hoje é o de transmitir mensagens complexas, difíceis e que nem sempre são “dotadas de esperança com relação ao futuro” de uma maneira agradável, que envolva emoção e não só a inteligência das pessoas.

Abramovay argumenta que o cinema é um dos mais poderosos instrumentos nesse sentido. “Fazer o filme e depois o debate é muito interessante porque dessa dimensão emocional voltamos para a dimensão racional, que obriga as pessoas a pensarem em diferentes abordagens. Indispensável não só para conhecermos os temas socioambientais, mas para o fortalecimento da democracia e da cidadania”, defende o professor.

Reforçando o compromisso com a democratização de seu conteúdo, a 6ª Mostra Ecofalante promoveu sessões de dois filmes com recursos de acessibilidade. As legendas open captions, tradução em LIBRAS e audiodescrição simultânea tornaram os filmes acessíveis para pessoas com deficiências auditivas e visuais.

Daniela Guariba, produtora executiva da Mostra, conta que a ideia é ampliar cada vez o número das sessões com acessibilidade. Ela ressalta que elas não foram exclusivas, e sim inclusivas. “O objetivo foi fazer com que as pessoas com deficiência aproveitassem a Mostra Ecofalante como qualquer outra pessoa, tendo acesso aos filmes que trazemos e participando dessa grande discussão, tão urgente e importante”, disse.

Programas competitivos

A Competição Latino-Americana foi a maior até agora. Foram inscritas 374 obras e selecionadas 32, com sete países representados – Argentina, Brasil, Colômbia, Cube, México e Uruguai. Quatro filmes fizeram sua pré-estreia mundial na Mostra Ecofalante: os curtas “Terminal 3” e “A Grande Ceia Quilombola” e os longas “Não Respire – Contém Amianto” e “Substantivo Feminino”, todos brasileiros. Foi também o ano com o maior número de diretores presentes – 14, entre brasileiros e latinos – para bate-papos com o público.  (acha que vale citar os nomes e filmes?)

O júri da Competição Latina, formado pelos cineastas Jorge Bodanzky e Regina Jeha e pela jornalista Maria Zulmira de Souza, nomeou o chileno “O Vento Sabe que Volto à Casa” como melhor longa da Competição, pela originalidade da proposta cinematográfica, narrativa singular e pela complexidade com que aborda questões de intolerância e preconceito.

O prêmio de melhor curta foi para “Osiba Kangamuke – Vamos Lá, Criançada”, do Brasil, “uma delícia de filme, que não queríamos que acabasse”, justificou o júri. Foram dadas ainda menções honrosas para “Substantivo Feminino” e “Caminho dos Gigantes”, ambos brasileiros, e um prêmio especial para o argentino “Damiana Kryygi”. No voto do público quem levou o troféu para casa foi a produção brasileira “Não Respire – Contém Amianto”.

< Veja mais sobre os premiados na Competição Latino-Americana >

No encerramento do festival aconteceu também a premiação do segundo concurso Curta Ecofalante, voltado para produções universitárias. “Disforia Urbana”, de um estudante da Universidade Federal de Pernambuco, recebeu a honra máxima e o prêmio em dinheiro. “Obra Autorizada”, feito por um aluno da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, recebeu menção honrosa. O público da Mostra escolheu “Ciclo Urbano”, curta feito por estudantes da Escola Técnica Jornalista Roberto Marinho.

A 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental é uma realização da ONG Ecofalante, do Ministério da Cultura, do Governo Federal e da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo. É uma correalização da Spcine e da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Tem patrocínio da Sabesp e da Pepsico, com apoio da Goodyear, White Martins, Guarani – Mais que açúcar e do Instituto Clima e Sociedade. É possível graças à Lei de Incentivo à Cultura e ao Programa de Apoio à Cultura (ProAC).

 O evento conta com o apoio institucional do Carbon Disclosure Program – CDP, Catraca Livre, Centro Brasil no Clima, ClimaInfo, Conexão Planeta, eCycle, Engajamundo, Fábricas de Cultura – Poiesis e Catavento, Governos Locais pela Sustentabilidade – ICLEI, GreenMe, Grupo de Institutos e Fundações de Empresas – GIFE, Horizonte Educação e Comunicação, Instituto Akatu, Instituto de Energia e Ambiente – IEE/USP, Instituto Democracia e Sustentabilidade – IDS, Instituto Envolverde, Instituto Socioambiental – ISA, Le Monde Diplomatique Brasil,  Observatório do Clima, Rede Nossa São Paulo, Revista Piauí, SOS Mata Atlântica, Uma Gota no Oceano, Videocamp, Viração Comunicação.

 

 

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