Para as atuais e futuras gerações

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Foto: Yeken Serri

Sávio de Tarso*

 “Nos debates da Comissão Brundtland, cedo verificamos que o excesso de população, que está ainda crescendo, é um dos maiores problemas do planeta Terra. Assim, frear o crescimento excessivo da população humana pareceu prioritário. Como fazer isso? Somente seria possível, ou viável, através dos benefícios trazidos pelo desenvolvimento. Mas que desenvolvimento? De que tipo? Alguém sugeriu que seria um ‘Desenvolvimento Sustentável ou Sustentado’. E como seria este? Como ele se manteria no decorrer dos séculos? Chegamos à conclusão, chave e óbvia, que o Desenvolvimento Sustentável é o que não prejudica a geração atual nem as gerações futuras. Com os bons resultados assim produzidos, seria possível realizar uma das nossas metas principais aqui na Terra: a erradicação da miséria.”

 Esse testemunho em tom de reflexão, de 27 de fevereiro de 1987, é um dos mais relevantes entre as centenas de descrições de fatos históricos publicadas em 2010 no “Diário de Paulo Nogueira-Neto – Uma Trajetória Ambientalista”. Surge nesse episódio, se não a criação, pelo menos a adoção em escala planetária da expressão que é crescentemente, desde então, um princípio norteador das atividades humanas que respeitam o equilíbrio ecológico nas interações com a natureza. A formulação adotada no Relatório “Nosso Futuro Comum”, publicado em 1988 pela Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, a famosa Comissão Brundtland, consolidou-se em 2015 na plataforma global “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, aprovada pelos 195 países que integram as Nações Unidas. A preocupação do autor com essa questão fora externada em reunião da Comissão realizada em 28 de maio de 1986, conforme relata no Diário:

“Pedi a palavra e fiz críticas a 10 ou 12 partes do Capítulo II, sobre a conexão Ambiente-Desenvolvimento. Salientei que as conclusões do Capítulo II eram platitudes, generalidades. São necessárias conclusões mais concretas, mais fortes. Sugeri, como exemplo, propor uma conferência sobre uma nova ordem ambiental-econômica, algo parecido com Bretton Woods (que era só econômica) no passado”.

O fato de ser o único brasileiro participante da elaboração desse Relatório essencial para o entendimento da dinâmica socioambiental seria suficiente para legitimar a decisão da Mostra Ecofalante de homenagear Paulo Nogueira-Neto como personagem estelar nos esforços pela conservação da natureza. Ocorre que o Doutor Paulo (como é reverenciado entre os ambientalistas de todos os tons), advogado, biólogo e professor emérito da Universidade de São Paulo, alcançou essa projeção internacional porque construiu, com retidão inabalável, um rosário de atividades e posturas que ao longo dos anos resultaram em ações diligentes para promover o estudo, a recuperação e a proteção de vastas áreas em todos os biomas – e não apenas no território brasileiro.

“O meio ambiente une”

Seria exaustivo listar aqui as Estações e Reservas Ecológicas – um total estimado em 3,2 milhões de hectares – que identificou e estabeleceu nos mais de 12 anos em que ocupou a Secretaria Especial do Meio Ambiente. Manteve-se no cargo por três períodos da ditadura militar, superando as imagináveis dificuldades para dialogar, nos anos de chumbo, com autoridades, empresários e políticos de pouca ou nenhuma sensibilidade para o tema. Nessa surpreendentemente longa passagem pelo governo federal, apesar das intrigas palacianas e reviravoltas políticas, estruturou as bases que fundamentam a legislação de proteção ambiental, abordando desde questões de saúde pública e poluição industrial até as atribuições dos vários entes federados e as diversas categorias que hoje constituem o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Para consolidar, especificar e regulamentar esse regramento abrangente, criou o Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente, que considera “o Parlamento Ambiental brasileiro” – do qual é conselheiro vitalício.

Conselheiro é, aliás, uma das atividades mais intensas a que se dedicou com interesse e criatividade. Além de ter integrado o Conselho Mundial do Meio Ambiente e o Nacional, participou dos Conselhos Estadual e Municipal de São Paulo. Criou e presidiu o Conselho Federal de Biologia… Bem, aqui caberia outra lista muito vasta, se considerarmos os organismos multilaterais com as quais colaborou ativamente – entre eles o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Unesco – e as numerosas organizações não governamentais que fundou e/ou dirigiu ou foi conselheiro: SOS Mata Atlântica, Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, WWF-Brasil (da qual é presidente emérito), Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), CI – Conservation International, WRI – World Resources Institute, entre muitos outros. É importante mencionar que Doutor Paulo foi um pioneiro das ONGs ambientalistas no Brasil, ao fundar em 1956 a Adema – Associação de Defesa do Meio Ambiente (ainda em atividade sob sua presidência), ao tempo em que “os ambientalistas de São Paulo cabiam numa kombi”, nas palavras dele.

Este é um resumo, muito sucinto, de uma biografia que começa num “berço de ouro”. Descendente do patriarca José Bonifácio e do presidente da República Campos Salles, Nogueira-Neto teve educação marcantemente católica, numa família de tradição republicana. Em diversos trechos do Diário, ele conta que reafirmou publicamente os princípios cristãos pelos quais pautou ações e comportamentos, atribuindo a essa conduta o fato de não ter angariado inimigos, apesar das numerosas batalhas políticas e técnicas que contrariavam os mais diversos interesses – muitas vezes radicais. É que o amor à Natureza representa, para Paulo Nogueira-Neto, uma faceta ampliada do mandamento de amor ao próximo; e o próximo é, também, as futuras gerações – espiral de concepções que culmina numa extrapolação poética à qual se apegou para aplacar divergências e conciliar opostos, pois “o meio ambiente une”.

Foi com essa peculiar visão de mundo que conseguiu, ainda na ditadura, dialogar de forma transparente porém firme para contornar arestas e aprovar, com apenas dois votos contrários no Congresso, a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6938/81), entre outros dispositivos normativos. Assim também logrou implantar as Estações Ecológicas como modelo de conservação capaz de evitar a invasão e a destruição de vastas áreas representativas dos diferentes biomas, praticamente virgens. Teve de ser cauteloso e sagaz ao propor a expansão do projeto-piloto ao ministro do Interior, seu superior hierárquico, numa reunião tensa em razão dos vastos recursos que demandava a ideia – afinal aprovada. É com uma profissão de fé que descreve o resultado do pleito: “Fiquei extremamente satisfeito, eufórico. Eureka! Finalmente estou com luz verde para o programa das Estações Ecológicas! Viva! Três vivas! Graças ao bom Deus! Não mereço tanta alegria!”

Manifestações como essa, de reverência ao Divino, estão reproduzidas ao longo de todo o Diário, que curiosamente conseguiu manter em sigilo nos quase 35 anos de testemunho de um cotidiano intensamente laborioso, até decidir publicá-lo. Escrevo “curiosamente” porque eram cadernos grandes, que levava para todo lado, nas exaustivas viagens mundo afora. (Tive a oportunidade de trabalhar com esse valioso material histórico ao ser convidado em 2007 a editar os originais manuscritos cujo resultado foi um volume de 900 páginas, infelizmente ainda pouco conhecido pelo público.) Atravessando os oceanos em grandes jatos, na caçamba de caminhonetes nas improváveis estradas dos sertões, sobrevoando as savanas africanas ou a vastidão amazônica num precário monomotor; não importava o sacolejar do veículo, Dr. Paulo sacava o caderno para narrar o recente diálogo com algum burocrata, descrever um personagem curioso, ou ainda fazer as especialíssimas observações sobre o comportamento das abelhas indígenas sem ferrão, principal objeto dos estudos científicos mantidos apesar do peso das responsabilidades como autoridade de primeiro escalão do governo federal. “Atenção: a letra ruim é devido ao fato de este diário ter sido escrito em veículos em movimento” – alerta em tom jocoso.

Maravilhas da Criação

Nesses trechos, por vezes carregados de humor, Doutor Paulo expõe exemplos de amor ao conhecimento e à integração entre as manifestações da vida. Multiplicam-se nos originais parágrafos mínimos, sutis, que enumeram a compra de mudas (em diversas partes do mundo), a preparação da terra, a semeadura, a adubação, a rega, a observação e a análise dos resultados obtidos nos viveiros e campos das fazendas que visitou ou administrou. Descreve “atividades agrícolas” com leguminosas na varanda do apartamento funcional em Brasília, os experimentos com plantas que pudessem ser cultivadas no semiárido para alimentar a carente população nordestina, passando ainda pelo cultivo de bosques com flores e frutos atraentes para aves e abelhas.

Essa intensa atividade se complementa com a observação e a defesa do direito à vida dos animais nas florestas, nos criadouros e zoológicos ou na condição de companhia doméstica, que o autor aprecia de maneira muito peculiar. A par da preferência pelas abelhas sem ferrão e antílopes elandes, todavia conciliáveis, destacam-se as descrições de espécies selvagens em seu habitat natural. São notas algumas vezes cruas, porque lavradas – quase sempre com a denominação latina – na memória do cientista interessado em registrar objetivamente o que viu, onde viu e em quais condições; outras vezes, porém, o maravilhamento transborda em interjeições plenas de emoção, sobretudo no interior do Brasil. O autor emprega carga emocional equivalente na luta contra “a incúria dos homens”, que se negam a reconhecer a urgência de evitar a extinção de espécies ameaçadas. Destacam-se relatos históricos da defesa das baleias minke, micos-leões e ararinhas azuis, entre outras espécies que tiveram sua participação direta na luta pela garantia de sua sobrevivência e reprodução nos habitats apropriados.

São cinematográficas, também, as minuciosas descrições de diferentes ecossistemas que Paulo Nogueira-Neto conheceu nas numerosas viagens por todos os continentes em mais de três décadas. Seu interesse se desdobrou em diversos planos de observação: os fenômenos meteorológicos, o perfil geográfico, a morfologia dos solos, a vegetação natural, os animais selvagens, as atividades agropastoris, as obras e aglomerações urbanas, as relações entre os seres humanos. Não são, porém, descrições frias e distanciadas; revestem-se, ao contrário, de comparações que estimulam a imaginação, ou pontuam adjetivações que aproximam o leitor das sensações que lhe tocaram: o frio excessivo, o calor escaldante, os contrastes inesperados, o desalento ante as injustiças, os efeitos nocivos da ação do homem e as maravilhas do engenho humano são exaltados para favorecer o necessário encontro entre as observações de um cientista que se encanta (ou pasma) e os muitos repertórios dos potenciais leitores.

O assento junto à janela das aeronaves era imperativo: foram centenas de milhares de quilômetros de sobrevoos (num só ano, 135 mil km), e outros tantos por terra. Poucos conheceram e descreveram o Brasil e o Mundo como ele: diário na mão, as muitas caligrafias descobrindo desertos, manadas, plantações, mares, florestas e metrópoles, ao sacolejar dos jipes, ônibus, helicópteros, teco-tecos e turbulentos jatos atravessando cumulus nimbus e outras nuvens, muitas vezes de poeira densa e fumaça proveniente de queimadas criminosas no Brasil profundo.

Foi numa viagem de investigação da floresta tropical no início dos anos 90 que se encantou com a região de Xapuri, no Acre. Lutou para criar, por decreto presidencial, a Área de Relevante Interesse Ecológico Seringal Nova Esperança, com o objetivo de proteger as plantas necessárias às atividades dos seringueiros e castanheiros. Estabeleceu ali um meliponário experimental para pesquisar abelhas e acabou tornando-se benfeitor da gente pobre do sertão amazônico: chegou a prestar assistência contínua para até 120 famílias, boa parte com dinheiro das aposentadorias, sem nenhum apoio dos governos. A par do fervor religioso, entendeu que essa atividade atendia a outro princípio: “A ação ambiental pode e deve correr junto com uma ação social também efetiva”.

Operação cata-papel no Palácio

Vale registrar ainda, por contraste, que nas quatro décadas recentes Paulo Nogueira-Neto foi recebido e homenageado por todos os presidentes do Brasil, além de governantes de numerosos países, incluindo príncipes, reis e rainhas. Embora discreto, teve de improvisar à brasileira em dezembro de 1997, quando recebeu do príncipe Philip (marido da rainha Elizabeth) o Prêmio Duque de Edinburgo, em cerimônia de gala no Palácio Saint James em Londres – um dos episódios mais graciosos relatados do Diário:

“Ao sentar-me, guardei o texto do meu discurso debaixo da minha cadeira. Eram folhas de papel soltas. (…) Terminado o jantar, o diretor-geral do WWF, Claude Martin, falou ao microfone sobre mim e meu currículo. Nessa ocasião, prevendo que eu falaria em seguida, procurei o texto do meu discurso. Com grande espanto e desolação, vi que as folhas de papel, por ação dos meus pés e dos pés dos meus vizinhos, haviam se espalhado debaixo da mesa! Além disso, estavam amassadas, pisadas, e uma das folhas havia se rasgado. O príncipe sorriu discretamente, eu também e meus vizinhos idem. Era uma situação cômica, mas por detrás do meu sorriso havia muita preocupação. Para pegar todas as folhas, tive de entrar discretamente, até certo ponto, debaixo da mesa (…).Terminada a operação cata-papel, o príncipe se levantou e me entregou três prêmios: uma lindíssima e grande moeda de ouro (sul-africano), um valioso Rolex e um diploma. Agradeci a ele, mostrei ao público (140 pessoas) a medalha e o relógio, e me dirigi a um pequeno podium (…). Ao ver o estado dos papéis do meu texto (escrito à mão), tomei rapidamente uma decisão que se revelou providencial. Falei espontaneamente, lendo apenas alguns trechos que tinham determinados detalhes. Deu certo. (…) Minha voz estava em ordem e meu inglês me pareceu muito bom. Recebi prolongados aplausos pelo meu discurso. (…) A meu ver, cheguei ao ponto culminante de minha carreira.”

Com simplicidade, escreveu que “é uma satisfação reencontrar na Fazenda Jatiara a minha caetetu (porca-do-mato) Joaninha. Ela, de longe, reconheceu-me e quando a chamo, vem correndo e alegre. É um animal que muito estimo. Anda solta quando estou aqui. Faz questão de me agradar a seu modo, como fazem entre si os caetetus. Também sou amigo deles”.

A entusiasmada reprodução de tão variadas impressões emergiu, a meu ver, da generosidade do mestre que distribui conteúdos amealhados num baú de afeições e saberes, para usufruto dos que possam reconhecer-lhe as notáveis qualidades científicas, literárias, humanas e históricas.

A profundidade e a singeleza dos episódios protagonizados por este homem incomum, que de terno-e-gravata – porém despido de sua condição de personagem de grandiosa envergadura internacional – cultivou arbustos na Esplanada dos Ministérios na calada da noite em Brasília; arriscou-se para colher mudas de rosas no canteiro central de uma movimentada avenida de Maceió; declara saudade das ariranhas de Mamirauá, e dialoga amigavelmente com Joaninha, a líder do bando de caetetus no qual figura um certo Paulo Nogueira-Neto.

 

*Sávio de Tarso, jornalista, editou o “Diário de Paulo Nogueira Neto – Uma Trajetória Ambientalista“.

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